Nos dias de sessão, antes de entrarem no plenário, os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) se encontram em uma espécie de antessala. Um biombo de madeira confere alguma privacidade às conversas diante de uma grande mesa redonda. São servidos café e petiscos. A crise na Corte alcançou esse espaço e mudou a forma como os ministros interagem nele.
Se na sessão do dia 15 os ministros trocaram acusações aos gritos; longe das câmeras da TV Justiça a atmosfera também está ruim, mas de um jeito diferente. A sala de lanches, de onde era possível ouvir gargalhadas, ficou mais silenciosa e menos frequentada. Cármen Lúcia, por exemplo, evita encontrar os colegas no ambiente.
Na semana passada, o clima estava “ameno”, segundo um dos presentes. Edson Fachin, Cristiano Zanin, Alexandre de Moraes, Dias Toffoli, André Mendonça, Luiz Fux, Kassio Nunes Marques e o procurador-geral da República, Paulo Gonet, se encontraram na antessala.
Nem todos quiseram compartilhar da mesma mesa. Alguns se instalaram em um sofá que fica ao lado para conversar com colegas de quem são mais próximos. Dessa forma, evitaram fazer contato visual e cumprimentar quem estava na “ala da mesa”.
Apesar das conversas triviais e de risadas discretas, o ar era de guerra fria. Desde que Mendonça divulgou o relatório com indícios contra Moraes, os dois não trocam palavra. O silêncio foi estendido à relação entre Moraes e Luiz Fux – que, por sua vez, saiu em defesa de Mendonça.
Ninguém falou do assunto na sala de lanches. A distância física guardada entre os ministros revelava, porém, quem rompeu com quem. No plenário, a geopolítica é outra. A ordem dos assentos obedece ao critério de antiguidade. Moraes senta-se ao lado de Mendonça. Continuam sem se falar – porém, a poucos palmos de distância.
Fachin tenta ser “algodão entre cristais”, para lembrar a metáfora de Marco Aurélio Mello, ministro aposentado, ao descrever o papel do presidente do STF. Ultimamente, inclui temas unânimes na pauta do plenário, para não dar margem a discussões. Na semana passada, foi julgado um processo sobre licença maternidade.
A sala de lanches do Supremo já foi palco de embates memoráveis. Em 2008, Joaquim Barbosa chamou Eros Grau de “velho caquético”. Os dois ministros, hoje aposentados, bateram boca sobre o escândalo da época, que tinha outro banqueiro no centro: Daniel Dantas.
Em uma situação mais dramática, o ex-procurador-geral da República Rodrigo Janot contou que, em 2017, no auge da Lava Jato, foi armado com um revólver até sala de lanches para atirar em Gilmar Mendes e, em seguida, cometer suicídio. Janot disse que desistiu ao chegar ao local. Gilmar recomendou ajuda psiquiátrica ao procurador.
Estadão