O senador Alessandro Vieira entregou hoje o relatório final da CPI do Crime Organizado. E quando todo o Brasil esperava uma lista extensa de bandidos, traficantes, milicianos e lavadores de dinheiro, o relator fez uma escolha que ninguém esperava: os únicos indiciados foram três ministros do Supremo Tribunal Federal e o Procurador-Geral da República.
Só eles. Mais ninguém.
Alexandre de Moraes, Dias Toffoli, Gilmar Mendes e Paulo Gonet. É a primeira vez na história do Congresso Nacional que uma CPI pede o indiciamento de ministros da Suprema Corte. O documento acusa os quatro de crimes de responsabilidade, condutas incompatíveis com o exercício dos cargos e de blindagem institucional frente às investigações do Parlamento no caso do Banco Master.
A sensação que ficou em Brasília é exatamente essa: Vieira não investigou o crime organizado. Ele concluiu que o crime organizado mora no andar de cima. Que a proteção ao esquema bilionário de Vorcaro, ao dinheiro dos aposentados roubado no INSS, às facções que dominam 26% do território nacional, passa pelos corredores do STF.
Nos bastidores, a reação dos ministros é de revolta. Fontes próximas à Corte descrevem um ambiente de indignação. Ministros que passaram anos se apresentando como guardiões da democracia agora se veem apontados num relatório parlamentar como peças do maior esquema de proteção ao crime que o país já investigou formalmente.
Mas o problema de Vieira é que o relatório, mesmo aprovado pela CPI, não tem efeito automático. O encaminhamento de qualquer pedido de impeachment contra ministros do STF é prerrogativa exclusiva do presidente do Senado, Davi Alcolumbre. O mesmo Alcolumbre que encerrou a CPI antes da hora, negou a prorrogação e impediu que 90 depoimentos fossem realizados.
Ou seja: o senador chutou o pau da barraca. Mas quem decide se a barraca cai é justamente quem mais tem interesse em mantê-la de pé.
O Brasil está de olho. E dessa vez, não tem como fingir que não viu.