A cena é emblemática. Na posse do novo ministro José Guimarães, da secretaria de Relações Institucionais, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi flagrado aos cochichos com o presidente do Senado Davi Alcolumbre.
Os dois saíram sem falar com a imprensa, mas foi depois dessa cena que se iniciou uma operação para salvar os ministros do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes, Dias Toffoli e Gilmar Mendes e o procurador-geral da República Paulo Gonet.
Com o aval de Alcolumbre e do líder do governo no Senado Jaques Wagner, foram trocados três membros da CPI do Crime Organizado. A mudança garantiu a rejeição do relatório do senador Alessandro Vieira (MDB-SE), que pedia o indiciamento por crime de responsabilidade dos ministros e do PGR por seu envolvimento no caso Master.
O placar foi de 6 votos a 4. Sem a troca, o relatório teria sido aprovado. Wagner culpou a liderança dos partidos — no caso o senador Eduardo Braga (MDB-AM), líder do bloco a que pertenciam os parlamentares que perderam a cadeira na CPI. Braga não se manifestou.
É bem verdade que o processo seria longo e provavelmente infrutífero. Mesmo que tivesse sido aprovado pela comissão, o pedido de impeachment não seria lido por Alcolumbre. Mas o Planalto poupou o presidente do Senado e os ministros do STF do desgaste.
Lula e o PT havia começado a fazer críticas ao Supremo e a Moraes em público, mas agora blindaram o Judiciário aos cochichos. Em entrevista ao ICL Notícias, o presidente disse que Moraes “não deveria jogar fora sua biografia” e se “declarar impedido no caso Master”.
Poucos dias depois, a fala de Lula foi reiterada pelo presidente do PT, Edinho Silva, em entrevista ao Canal Livre da Band. Em conversa com a Folha de S.Paulo e o UOL, a ex-ministra Gleisi Hoffman (PT-PR) foi na mesma linha e afirmou que o Judiciário precisa de uma reforma após as eleições.
O que move o presidente Lula e sua equipe é a percepção de que o caso Master pesa nas eleições de outubro. O antipetismo cresceu no País e as pesquisas de intenções de voto demonstram que não só Flávio Bolsonaro (PL-RJ), mas também Ronaldo Caiado (União Brasil - GO) e até Romeu Zema (Novo-MG) empatam com o atual mandatário no segundo turno.
E o antipetismo cresceu porque o PT não conseguiu se livrar da pecha da corrupção que vem desde o mensalão e o petrolão. No caso Master, o envolvimento do PT é marginal, mas o Supremo está no centro do escândalo.
Daí a tentativa de distanciamento, o que é muito difícil depois da aliança entre Lula e os magistrados contra o ex-presidente Jair Bolsonaro na defesa da democracia e também em batalhas contra o próprio Congresso.
Chamado pelo Centrão a socorrer seus aliados no STF numa hora de necessidade, o Planalto foi obrigado a comparecer. E não adianta tentar se esconder aos cochichos. A sociedade está vendo.
Raquel Landim - Estadão