O colunista Merval Pereira, um dos mais respeitados jornalistas do país e voz histórica d’O Globo, escreveu esta semana algo que a mídia progressista nunca quis admitir: que a circunstância política permitiu que aflorassem em alguns ministros do Supremo seus instintos mais primitivamente autoritários. Que os excessos nunca foram combatidos com o devido rigor pela imprensa. Que ele próprio, nas palavras dele, deixou passar porque achava que o objetivo final era correto.
Parabéns, Merval. Bem-vindo à realidade. Com alguns anos de atraso, mas seja bem-vindo.
Aqui no Blog, na 96 FM e em tantos veículos conservadores do Brasil, a gente vem gritando isso há anos. Que o STF ultrapassou todos os limites constitucionais. Que o Inquérito das Fake News nasceu torto, com Moraes como relator sem sorteio obrigatório. Que prisões provisórias longas e punições a críticos eram excessos que não podiam ser tolerados só porque o alvo político era conveniente.
Mas O Globo não disse isso. A Folha não disse. O Estadão não disse. Esses veículos contribuíram ativamente para a construção dos superpoderes do STF. Aplaudiram cada decisão, normalizaram cada abuso, silenciaram cada excesso, porque o objetivo final, como Merval confessa, parecia correto a eles.
O problema é que democracia não funciona assim. Não existe abuso aceitável quando praticado pelo lado certo. Não existe concentração de poder legítima quando quem concentra é seu aliado. Isso tem nome: é o mesmo autoritarismo que diziam combater, com toga diferente.
O Brasil pagou caro por esse silêncio conivente. E a conta ainda não acabou de chegar.