Em 31 de março de 2026, o presidente do STF, Edson Fachin, declarou que o encerramento do inquérito das fake news "está na pauta". Disse que já conversara com o relator Alexandre de Moraes e com outros ministros. Alertou: "Todo remédio, a depender da dosagem, pode se tornar veneno."
O inquérito, instaurado em 2019 por Dias Toffoli e entregue a Moraes sem sorteio, completou sete anos sem prazo para acabar, sem conclusão formal e com escopo muito além do original. A OAB pediu seu encerramento. Um grupo de ministros do próprio STF passou a defender internamente que "chegou a hora". Moraes sinalizou que avaliará o fechamento quando estiver próximo de assumir a presidência da Corte, em setembro de 2027.
Vinte dias depois da declaração de Fachin, Gilmar Mendes fez o oposto do que o discurso de encerramento sugeriria. Pegou o inquérito das fake news e o usou como instrumento de retaliação pessoal contra Romeu Zema, por causa de um vídeo de bonecos de fantoche.
A contradição é gritante: não é possível defender o fim do inquérito e, ao mesmo tempo, acioná-lo contra desafetos. Se o instrumento está maduro para ser aposentado, não deveria ser usado contra adversários pessoais de um ministro. Se ainda é necessário, a tese do encerramento é farsa.
Ao recorrer ao inquérito, Gilmar demonstrou na prática o que críticos dizem desde 2019: o procedimento se tornou ferramenta de poder, acionada seletivamente conforme a conveniência. Quando a crítica incomoda, o inquérito está de plantão. Quando a pressão pública pede seu fim, o discurso muda. Incluir um pré-candidato à Presidência no inquérito a seis meses da eleição não é apenas questão jurídica, é questão política de primeira grandeza. Gilmar Mendes não estava defendendo o STF. Estava defendendo Gilmar Mendes. E usou o aparato do Estado para isso. Fachin disse que todo remédio pode virar veneno. Gilmar mostrou que, para alguns, o veneno é o remédio.