Existe uma regra de ouro na comunicação política: nunca brigue com quem tem menos a perder do que você. Gilmar Mendes aparentemente não recebeu o recado. Ao transformar um vídeo de bonecos em notícia-crime e um embate de redes sociais em guerra institucional, o decano do STF entregou a Zema exatamente o que todo pré-candidato anti-establishment sonha: um Golias para enfrentar.
A estratégia de Zema é deliberada. Desde que deixou o governo de Minas, construiu sua pré-campanha sobre um pilar: o combate à "farra dos intocáveis". Ao declarar que Moraes e Toffoli "não merecem só impeachment, merecem prisão", não fazia análise jurídica. Criava slogans de campanha. E a cada resposta pública de Gilmar, no X, na Segunda Turma ou na notícia-crime, o ciclo se alimenta: Zema provoca, Gilmar reage, a mídia cobre, Zema ganha visibilidade, repete. A frase "vão ter que prender o Brasil inteiro" já circula como slogan informal da pré-campanha.
Para Gilmar, o cálculo é inverso e pior. Cada troca de farpas corrói a imagem de imparcialidade do tribunal. Quando usa a sessão da Segunda Turma para se defender e aciona o inquérito das fake news contra um pré-candidato por causa de fantoches, transforma um instrumento de proteção da democracia em arma de retaliação. O ministro tem o poder. O pré-candidato tem a narrativa. Na era das redes sociais, a narrativa quase sempre vence. Enquanto os dois transformam a crise institucional em reality show, o brasileiro continua sem respostas para os problemas reais.