No centro do embate entre o ministro Gilmar Mendes e o pré-candidato Romeu Zema (Novo) está uma questão concreta: durante o governo do ex-governador mineiro, o estado de Minas Gerais recorreu ao STF diversas vezes para suspender o pagamento de parcelas da dívida com a União, estimada em R$ 182 bilhões.
Os números são respaldados pela Nota Técnica SEI nº 1.488/2026, do Ministério da Fazenda. Segundo o documento, liminares concedidas pelo Supremo permitiram ao estado adiar pagamentos por 21 meses ao longo da gestão Zema. Sem essas decisões, segundo Gilmar Mendes, Minas teria enfrentado "grave desorganização fiscal" e dificuldades para garantir a continuidade de serviços públicos.
"A contradição é latente", escreveu o ministro no X. "Quando o STF profere decisões que garantem o fluxo de caixa ou suprem omissões do Legislativo local, a Corte é acessada como agente necessário ao funcionamento da máquina estatal. Contudo, basta que contrarie interesses políticos para que o pragmatismo jurídico dê lugar a chavões vazios."
Zema rebateu com uma lógica diferente. Para o ex-governador, o fato de ter recorrido ao Judiciário não significa que deva concordar com tudo o que o STF faz. "Ele deu uma decisão favorável a Minas Gerais, e agora descobri que foi um favor para eu ser submisso a ele pelo resto da vida. Será que é pra isso que o juiz decide?", questionou em entrevista ao portal O Antagonista.
O argumento de Zema é direto: recorrer à Justiça é um direito constitucional de qualquer cidadão ou ente federativo, e isso não pode servir como moeda de troca para silenciar críticas.
Do ponto de vista factual, Gilmar tem razão: Minas Gerais de fato foi beneficiada por liminares do Supremo. Do ponto de vista jurídico, Zema também tem um ponto: o direito de acesso à Justiça não cria vínculo de lealdade ou concordância com o tribunal.
A questão de fundo, porém, vai além dos dois personagens. Ela expõe o uso político que ambos os lados fazem das instituições: Zema instrumentaliza a crítica ao STF como plataforma eleitoral; Gilmar transforma dados técnicos em munição pessoal contra um adversário político.
E na esteira de tudo isso, o ministro pediu desculpas pela fala homofóbica contra Zema, mas em nenhum momento se retratou pela zombaria ao sotaque mineiro, quando disse que o ex-governador "fala uma língua próxima do português". Uma seletividade que não passou despercebida.