Neymar saiu de campo depois de liderar a vitória do Santos por 2 a 0 sobre o Remo, na noite de quinta-feira, irritado com a arbitragem de Sávio Pereira Sampaio. Disse que sofreu faltas repetidas, que foi ao árbitro reclamar com educação, levou cartão amarelo de imediato e ainda viu o juiz virar as costas. Na raiva, usou uma expressão popular que qualquer brasileiro de mais de 20 anos já ouviu na vida: “Acordou de chico e veio assim pro jogo.”
A turma que acorda todo dia com o gatilho engatilhado foi ao Twitter com a velocidade de sempre. Machista. Misógino. Repudiável. L’Équipe entrou na dança. O Diário Olé da Argentina também. A ESPN mandou uma jornalista ao microfone fazer o sermão. A internet explodiu em indignação como se Neymar tivesse cometido um crime de guerra.
Tem só um detalhe que a turma lacradora ignorou completamente na histeria toda: o árbitro era homem.
Sávio Pereira Sampaio. Homem. Com nome masculino. Apitou o jogo inteiro. Recebeu a crítica inteira. E a expressão popular “de chico”, que no Brasil serve há décadas para descrever qualquer pessoa mal-humorada, intolerante ou difícil de tratar, foi usada por Neymar para falar de um homem que estava mal-humorado apitando um jogo de futebol.
O problema da lacração compulsória é exatamente esse. Ela não raciocina. Não lê o contexto. Não verifica o gênero do alvo da crítica. Querem lacrar politicamente com o Neymar. Pega o gatilho, dispara, e parte para o sermão moral. A expressão “de chico” existe no vocabulário popular brasileiro há décadas. É dicionário popular. É linguagem de bar, de vestiário, de família, de conversa de rua. Ela não foi criada por Neymar naquela noite e não vai desaparecer porque a ESPN botou uma jornalista para dar bronca numa tela de televisão.
Fora isso, o que Neymar criticou foi a postura de um árbitro que dava cartão amarelo sem diálogo, virava as costas e queria ser a estrela do jogo. Essa é uma crítica legítima, comum e necessária no futebol brasileiro. Mas a turma que lacra não chegou nessa parte. Parou na expressão popular, pulou de alegria com o escândalo do dia e foi ao trabalho.
Nem toda frase informal é um manifesto de ódio. Nem toda expressão popular é um crime. E nem todo árbitro que acorda de mau humor é mulher, como o próprio caso prova. Vamos deixar de mimimi e fragilidade emocional. O problema do Brasil é ter dois ministros envolvidos no caso do Banco Master e não o Neymar.