A paralisação do transporte intermunicipal no RN, deflagrada com motoristas cobrando salários e empresas alegando colapso financeiro, já é a primeira “herança” de Cadu Xavier. À frente da Secretaria da Fazenda até semana passada, Cadu sai de cena deixando um sistema essencial travado e uma conta que ninguém quer assumir em público.
O nó, como o setor repete há meses, não é só o preço do diesel. As empresas cobram o pagamento do subsídio das gratuidades, como as passagens para idosos e pessoas com deficiência, um custo real que vira prejuízo quando o ressarcimento não chega. Sem esse dinheiro, o caixa aperta, a folha atrasa e a crise estoura no ponto mais sensível: o usuário, que fica sem ônibus para trabalhar, estudar ou buscar atendimento de saúde.
Do outro lado, o Governo tenta empurrar a discussão para uma vitrine mais confortável, dizendo que já subsidia o sistema via isenção do ICMS do diesel. A conta pode até aliviar parte do custo operacional, mas não responde ao ponto central levantado pelas empresas: gratuidades são política pública e precisam de compensação clara, regular e transparente, sem depender de improviso nem de narrativa tributária para “fazer parecer” que está tudo coberto.
Ao fim, a paralis ação expõe um padrão conhecido em ano pré-eleitoral: o Estado fala em benefício fiscal e o serviço afunda na prática. Quando o transporte para, a crise deixa de ser contábil e vira social, porque atinge justamente quem não tem carro, não tem alternativa e depende de linhas intermunicipais para circular entre Natal, Região Metropolitana e interior.
Se Cadu Xavier quer mesmo se apresentar como gestor, o episódio vira um teste antecipado — ainda que ele já tenha deixado o cargo. Porque a “herança” de uma Secretaria da Fazenda não se mede em discurso, mas em serviços funcionando, contratos equilibrados e políticas públicas pagas em dia. Quando o ônibus recolhe para a garagem, a campanha pode até começar, mas a gestão, para o cidadão, já terminou mal.