A mão pesada da política voltou a assombrar a Petrobras. Enquanto o cessar-fogo entre Estados Unidos e Irã derrubou o preço do barril e fez as ações da estatal despencarem até 8% nesta quarta-feira (8), o mercado financeiro já precificava um risco muito anterior — e muito mais corrosivo — à queda do petróleo: a interferência sistemática do governo Lula na gestão da companhia.
Não se trata de teoria conspiratória ou pessimismo de analista. Os fatos são públicos e sequenciais. Em março, o presidente chamou de "bandidagem" o leilão de GLP conduzido pela própria Petrobras, o que resultou na saída do diretor de Logística, Comercialização e Mercados, Claudio Romeo Schlosser. A CVM precisou enviar ofício à companhia pedindo esclarecimentos sobre possível interferência política nos preços, após declarações de Lula indicando que a estatal deveria absorver os choques do petróleo sem repassá-los ao consumidor.
A Abicom apontou defasagem de R$ 3,05 por litro no diesel e R$ 1,61 na gasolina em relação ao mercado internacional. A gestora TAG Investimentos resumiu o diagnóstico em sua carta de abril: "O mercado está embutindo na cotação das ações o risco da governança corporativa da estatal, e não o salto no preço do petróleo."
O paradoxo é evidente e doloroso para o acionista. O barril de Brent chegou a US$ 120 no mês passado — um cenário que, em qualquer petroleira do mundo, significaria lucros recordes e valorização dos papéis.
Na Petrobras, aconteceu o oposto. As ações já vinham caindo antes do cessar-fogo, descoladas do petróleo, porque o investidor enxerga um governo que subsidia diesel com dinheiro público, pressiona a estatal a segurar preços artificialmente, troca diretores que contrariam a narrativa eleitoral e, agora, publica Medidas Provisórias que sinalizam o retorno à política intervencionista que quase destruiu a companhia entre 2011 e 2014. Tudo isso a seis meses de uma eleição na qual Lula busca a reeleição.