Rosas di Maria 2
Foto: Reprodução/ Dark Horse
politica

Uma família do barulho

Com o pai preso por tentativa de golpe de Estado, quatro irmãos se unem para produzir um filme hollywoodiano de exaltação à vida do patriarca, com um ator americano que interpretou Jesus Cristo, mas acabam caindo nas mãos de um banqueiro trambiqueiro.

Esse é o roteiro menos problemático do que fizeram Flávio e Eduardo Bolsonaro ao coletar dinheiro sob a alegação de fazer um filme sobre a vida recente do pai, pois suspeita-se e investiga-se que a película não seja exatamente o objetivo final de mexer com tantos milhões de dólares.

De qualquer forma, é inacreditável que a pré-campanha do senador Flávio Bolsonaro tenha sofrido seu maior abalo até agora por conta da ideia de produzir um filme sobre Jair Bolsonaro. Aliás, seria inacreditável se a família em questão não se tratasse dos Bolsonaros.

O roteiro dessa história, que poderia passar na Sessão da Tarde sob o título de Um família do Barulho, tem um senador que fez o pai presidente entregar o governo ao Congresso Nacional para salvá-lo de uma investigação, um deputado cassado por faltas e sob julgamento por alegar tramar contra o próprio país para evitar a condenação do pai, um ex-vereador que bagunçou as alianças do próprio partido simplesmente porque quer morar em Santa Catarina, estado que ele mesmo faz questão de chamar de “Brasil que deu certo”, desprezando o estado natal Rio de Janeiro, e um vereador com dificuldade para se articular, mas disposto a usar animes para explicar a política.

Essa família atua alegadamente em defesa da família, mas os filhos não se dão bem com a madrasta, a ponto de sugerir publicamente que ela trama contra o próprio marido, e pelo menos um deles já foi flagrado xingando o pai em troca de mensagens revelada por uma investigação policial.

Por mais absurda que pareça, toda essa trama é bem melhor que o argumento de Dark Horse.

O roteiro consegue romancear até a expulsão de Bolsonaro do Exército, como se ele tivesse confrontado a corrupção na corporação, quando na verdade agiu mais como um sindicalista.

O texto troca a ordem de momentos históricos. No filme, Lula já foi solto pelo STF quando Bolsonaro participa de debates da campanha de 2018, mas isso só ocorreu após o fim da eleição.

Além disso, a facada em Juiz de Fora (MG) não ocorreu no segundo turno, como sugere o texto pelos números de uma pesquisa eleitoral, mas no primeiro, e impulsionou a candidatura da vítima.

O roteiro também transforma o ex-presidente em uma figura muito mais charmosa e sagaz do que ele realmente é, mas todos esses exageros e distorções fazem parte do jogo narrativo da ficção.

O grande problema, na perspectiva do que realmente ocorreu na campanha, é que a trama conspiratória para matar o candidato apresentada no filme tenta materializar algo que as investigações não conseguiram configurar: que Adélio Bispo foi contratado para a missão.

E é pior do que isso.

Na ausência de um sentido maior para a tentativa de assassinato de Bolsonaro, a história inventa um passado de justiceiro para o ex-presidente, como se ele tivesse prendido o homem que depois viria a encomendar sua morte, um traficante apelidado “Cicatriz”, que sai impune da tentativa de assassinato e segue conspirando contra o herói, inclusive com “um homem esguio, careca, sério, com um ar de superioridade moral” que “poderia ser um juiz da Suprema Corte”.

Aliás, em Dark Horse há outras tentativas de matar Bolsonaro além da facada.

Essa romantização joga contra o ex-presidente, pois o conflito com a realidade deixa claro a distância entre a fábula que a família alimenta e o que ocorreu de fato, algo caótico, aleatório, ainda que realmente alimentado por um discurso de demonização da esquerda brasileira contra Bolsonaro.

O que estava destinado a se transformar em um debate sobre a responsabilidade da ficção na representação de histórias reais, especialmente durante um período eleitoral, virou, contudo, uma ligação entre a família do ex-presidente e a figura mais tóxica da República, abalando a pré-candidatura presidencial de Flávio, que já não era tão forte assim.

Após alimentar as suspeitas sobre a conduta do banqueiro Daniel Vorcaro, que de fato buscou diversos aliados de Lula para conseguir se encontrar fora da agenda oficial com o presidente, além de distribuir dinheiro para boa parte de Brasília, os Bolsonaros tentam agora convencer os eleitores de que mantinham uma relação ingênua e pura com o dono do liquidado Banco Master.

Mas há tanto dinheiro envolvido na produção do filme e tantas gambiarras para fazê-lo circular que a história ameaça se transformar em um roteiro policial. Perder a eleição deste ano por causa disso pode acabar se tornando o menor dos problemas para os filhos de Jair.

 

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