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Afastamento por burnout dispara 823% em quatro anos; esgotamento profissional virou dado de gestão

Sim, eu sei que você já leu sobre o tema. E é importante detalhá-lo cada vez mais. Os afastamentos por burnout cresceram 823% nos últimos quatro anos no Brasil, segundo dados do Ministério da Previdência Social. Não há forma de suavizar esse número.

Oitocentos e vinte e três por cento é uma explosão, não uma tendência. E o que o dado revela não é que os brasileiros ficaram mais frágeis. É que o modelo de trabalho que a maioria das empresas manteve intacto nos últimos anos chegou num ponto em que o ser humano não sustenta.

A conta não ficou só no INSS. O Brasil encerrou 2025 com mais de 530 mil afastamentos por transtornos mentais, o maior número da série histórica. Para quem tem empresa, esse dado precisa ser lido de outra forma: é uma cidade do tamanho de Maceió inteira saindo do mercado de trabalho por saúde mental num único ano.

Cada afastamento carrega consigo recrutamento emergencial, queda de produtividade na equipe, perda de conhecimento que levou anos para ser construído e um moral coletivo que não se repõe com comunicado interno.

Ontem mesmo estava lendo sobre uma rede de contabilidade com 85 funcionários no interior do Paraná que perdeu três analistas sênior no mesmo trimestre por esgotamento. Todos com mais de cinco anos de casa. O custo estimado de reposição dos três, considerando recrutamento, onboarding e queda de produtividade no período de adaptação, ficou em torno de R$ 180 mil. Esse valor não estava previsto em nenhum orçamento. E não havia nenhum sistema de alerta que sinalizasse o risco antes de ele virar afastamento.

A maioria dos afastamentos é de mulheres, que respondem por 64% dos casos, com idade média de 41 anos e quadros de ansiedade e depressão. Elas passam em média três meses afastadas. Eu mesma já tive 5 burnouts. Sim, foi isso mesmo que leu. Inclusive escrevi aqui na minha coluna.

E as mulheres mantêm financeiramente 49,1% dos lares brasileiros. O burnout está derrubando, de forma desproporcional, o perfil de profissional que mais acumula responsabilidade simultânea. Quando essa pessoa sai da operação por três meses, o impacto não é só na empresa. É na família inteira que depende do salário dela.

É aqui que entra uma das questões mais negligenciadas dessa crise: a ausência de dados clínicos no momento certo. Conheci Luiz Lannes, fundador da Shaped, healthtech brasileira que desenvolveu uma IA capaz de medir composição corporal e indicadores metabólicos por foto de celular, com precisão validada pela revista npj Digital Medicine, da editora Nature.

O que me chamou atenção foi o uso da tecnologia em programas de saúde corporativa: empresas que adotaram a plataforma passaram a ter dados objetivos de saúde física dos colaboradores de forma contínua, não apenas nas avaliações anuais. Sinal precoce de deterioração física frequentemente antecede o colapso emocional. Quem tem o dado antes tem tempo de agir antes.

A atualização da NR-1, em vigor desde maio de 2026, obriga empresas a incluir riscos psicossociais no Programa de Gerenciamento de Riscos. Fatores como sobrecarga de trabalho, metas abusivas e pressão excessiva por produtividade passam a integrar formalmente o escopo de prevenção ocupacional.

Isso tem implicação jurídica direta. A empresa que não documentar o processo de gestão de riscos psicossociais fica exposta em processos trabalhistas onde o colaborador alega que o ambiente causou o adoecimento. Os erros mais recorrentes são tratar a questão apenas como pauta de RH sem gestão técnica, manter metas abusivas e adotar medidas meramente protocolares sem documentação efetiva.

A Natura, que opera com mais de 8 mil colaboradores diretos no Brasil e há anos figura entre as melhores empresas para trabalhar, construiu ao longo de uma década uma estrutura de saúde ocupacional que trata saúde mental como métrica de operação, não como programa de RH. O resultado aparece nos indicadores de retenção, no NPS interno e na consistência de entrega das equipes ao longo do tempo. Não é filantropia corporativa. É gestão de ativo humano com a mesma seriedade com que se gere estoque ou fluxo de caixa.

A Organização Internacional do Trabalho estima que os riscos psicossociais representam uma perda anual equivalente a 1,37% do PIB global, reflexo do aumento de afastamentos, da queda de produtividade e da rotatividade. O burnout cresceu 823% porque as empresas cresceram as demandas sem crescer as condições. Essa equação tem apenas um desfecho possível quando não é corrigida a tempo. E o gestor ou gestora que ainda trata saúde mental como programa de bem-estar vai descobrir, cedo ou tarde, que era decisão de gestão o tempo todo.

Camila Farani - Estadão

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