A pergunta que o Brasil precisa fazer e ninguém na grande mídia quer responder é simples: e se fosse Bolsonaro? Em 2 de junho de 2026, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva subiu ao palanque em Catalão (GO), em evento oficial transmitido pela TV Brasil e pelo YouTube do governo, e sugeriu ao público que o senador Flávio Bolsonaro merecia ser enforcado por "traição à pátria".
A fala gerou mais de 1.600 postagens com ameaças explícitas nas redes sociais em apenas 24 horas, alcançando 14 milhões de visualizações, conforme levantamento apresentado na notícia-crime protocolada ao STF pela defesa do senador. O silêncio das instituições que deveriam reagir imediatamente foi ensurdecedor.
O contraste com o tratamento dado à direita é difícil de ignorar. O inquérito das fake news, aberto em março de 2019 sob relatoria do ministro Alexandre de Moraes, sem sorteio de relatoria como reconheceu o próprio Valor Econômico, acumula sete anos de investigações direcionadas quase que exclusivamente ao espectro bolsonarista.
Em agosto de 2024, a Folha de S.Paulo revelou, com base em mensagens internas, que o próprio gabinete de Moraes escolhia os alvos das investigações e pedia ajustes nos relatórios quando eles não ficavam a contento. Mais de 150 procedimentos foram abertos contra figuras ligadas à direita. Até hoje, nenhum petista foi investigado no mesmo inquérito por discursos de teor semelhante.
O paralelo mais imediato está na própria história recente. Quando Jair Bolsonaro disse, em 2018, que queria "fuzilar a petralhada", o PT foi imediatamente ao STF pedir providências e o episódio foi tratado pela imprensa e pelas instituições como um escândalo grave.
Agora, conforme registrou a Folha de S.Paulo em 7 de junho de 2026, os papéis se invertem: é a pré-campanha de Flávio quem aponta incitação e ameaça, enquanto apoiadores de Lula minimizam a fala presidencial como mera retórica política. A seletividade do argumento é tão evidente que a própria Folha registrou que petistas e bolsonaristas literalmente trocaram de posição no debate, cada lado defendendo agora o que antes atacava.
O que torna o caso de Lula estruturalmente mais grave não é apenas o conteúdo da fala, mas a plataforma utilizada. Não foi um comício de campanha improvisado. Foi um evento oficial do governo federal, transmitido pela emissora pública, com o peso simbólico e institucional da Presidência da República.
A petição ao STF assinada pelo escritório Tracy Reinaldet aponta que, nas 24 horas seguintes ao discurso, surgiram termos como "matar", "fuzilar" e "esfaquear" em mais de 1.600 postagens direcionadas a Flávio e sua família. Se um parlamentar de direita tivesse produzido efeito equivalente, a operação policial provavelmente já teria acontecido e os mandados de busca e apreensão teriam sido cumpridos antes do café da manhã.
A questão não é absolver ou condenar nenhum dos lados pelo mérito jurídico, já que especialistas ouvidos pela Folha divergem sobre a tipificação criminal tanto da fala de Lula quanto da de Bolsonaro em 2018. A questão central é de isonomia: ou a lei vale para todos com o mesmo vigor e a mesma velocidade, ou ela não é lei, é ferramenta.
O inquérito das fake news completa sete anos em meio a uma crise de credibilidade crescente do STF, pressionado até por advogados e professores de direito que pedem seu encerramento, segundo o Valor Econômico. Enquanto isso, a notícia-crime de Flávio Bolsonaro aguarda resposta da Corte. O relógio corre, mas como de costume, parece correr em velocidades diferentes dependendo de quem está no banco dos réus.