Há duas décadas, em meio a um cenário de drogas com eficácias limitadas e diversos eventos adversos, era difícil imaginar o quanto o tratamento farmacológico da obesidade evoluiria nos anos seguintes. Hoje, as famosas “canetas emagrecedoras” conseguem eliminar cerca de 20% do peso corporal, têm efeitos colaterais manejáveis e melhoram diversos indicadores ligados ao número da balança, como desfechos cardiovasculares.
E o potencial completo desses novos mecanismos, que mimetizam hormônios que atuam no metabolismo do corpo, ainda não foi completamente desvendado. Novas drogas em fases avançadas dos estudos clínicos têm alcançado reduções que superam os 30% do peso, algo visto somente com cirurgias bariátricas, e com maior preservação da massa muscular. Em meio a esse avanço, já começa a ser observada uma queda nas cirurgias.
Em maio, um estudo publicado na revista científica JAMA Surgery analisou dados dos Estados Unidos e encontrou uma “diminuição profunda” de 34,1% nas cirurgias metabólicas bariátricas entre 2022 e 2024, enquanto o uso das canetas saltou 140,4% no mesmo período. No Brasil, dados da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) indicam que, em 2024, houve uma queda de 18% nas bariátricas da rede privada quando comparado ao ano anterior.
Ao GLOBO, o presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica (SBCBM), Juliano Canavarros, estima que, em 2025, esse percentual já deve ter ultrapassado os 20% e reconhece o impacto das canetas. Mas garante que as operações continuarão a ter um papel nesse novo arsenal de combate à obesidade, especialmente para pacientes mais graves e até mesmo em combinação com o tratamento farmacológico:
— A visão de que a bariátrica vai acabar é uma visão distorcida da realidade. Os medicamentos e a cirurgia se complementam. A cirurgia vai ficar restrita aos pacientes mais graves. Mas até 2030 quase 30% da população brasileira vai estar obesa, com cerca de 12% sendo casos mais graves.
O que já vemos de impacto da expansão das canetas emagrecedoras nas bariátricas?
Isso já é um fato, houve uma redução. Temos diferenças muito grandes pelo Brasil, mas estimamos uma diminuição de em média 25% na procura no ano passado. O que é normal, porque a caneta é uma nova modalidade terapêutica que está se encaixando dentro do escalonamento que fazemos na escolha dos melhores tratamentos para cada paciente de uma doença crônica que é a obesidade.
Tem algum perfil que tem buscado menos as cirurgias?
Vemos que pacientes com obesidade leve e moderada têm alcançam boa perda de peso e melhora de comorbidades como apneia do sono, dores articulares, pressão alta, diabetes com as canetas. Com isso, eles evitam a cirurgia. Mas, por outro lado, pacientes que têm quadros graves têm buscado cada vez mais as bariátricas.
Como vê a perspectiva de termos medicamentos ainda mais potentes nos próximos anos? Existe risco de a bariátrica ser substituída completamente?
A visão de que a bariátrica vai acabar é uma visão distorcida da realidade. Vemos que cerca de 5% a 10% dos pacientes abandonam as canetas por efeitos adversos, como náuseas, vômitos, constipação grave, dores abdominais, entre outros. E outra parcela significativa, de 5% a 10%, abandona porque o tratamento não foi eficaz. Alguns pacientes desenvolvem anticorpos contra essas drogas, que acabam neutralizando o seu efeito. Então existe um público grande que nem vai conseguir seguir o tratamento.
E o cirurgião sozinho jamais resolveu a obesidade. Quem trabalha de maneira séria com os tratamentos cirúrgicos sabe que as drogas são extremamente importantes. Elas podem ser indicadas para o paciente perder peso antes da operação, por exemplo, ou para ajudar aqueles que já fizeram a cirurgia, mas tiveram um reganho do peso. Os medicamentos e a cirurgia se complementam. A cirurgia vai ficar restrita aos pacientes mais graves. Mas até 2030 quase 30% da população brasileira vai estar obesa, com cerca de 12% sendo casos mais graves.
Qual o cenário hoje de realização de bariátricas no Brasil, ainda fazemos menos do que há demanda?
Ainda somos muito limitados em termos de acesso à cirurgia. Se falarmos de SUS, então, apesar de haver uma tentativa dos governantes de diminuir essas filas, elas ainda são muito grandes. Só no dia 11 de outubro do ano passado, que é Dia Nacional de Prevenção da Obesidade, mais de 10 mil pessoas ligaram para a sociedade pedindo socorro porque estavam há anos na fila. E os pacientes do SUS têm um quadro mais grave de obesidade. A nível de consultório, alguns colegas perceberam a diminuição na procura, mas outros também continuam com uma demanda alta.
Qual o maior entrave hoje para ampliar as bariátricas no SUS? É uma questão orçamentária ou existe também déficit de profissionais habilitados?
Acredito ser uma mistura, e o cenário é muito diferente. Vemos estados que têm programas próprios, outros que financiam com emenda parlamentar. Então isso gera uma dificuldade até para o gestor local estruturar os serviços e pensar o melhor caminho. E precisamos atualizar as diretrizes.
Estivemos reunidos junto ao Ministério da Saúde, ao Conass (Conselho Nacional de Secretários de Saúde) e o Conasems (Conselho Nacional de Secretarias municipais de Saúde) e dissemos ver como oportuna uma readequação do PCDT, que é o plano de tratamento das doenças crônicas no SUS, com as novas resoluções que vieram inclusive do Conselho Federal de Medicina ampliando o público elegível para a bariátrica.
A sociedade tem buscado implementar centros de tratamento da obesidade na rede pública para que especialistas possam atender esses pacientes. É uma doença que precisa de uma equipe formada por nutricionistas, psicólogos, endocrinologistas, nutrólogos, cirurgiões. Nem todo município tem essa estrutura. Então propomos uma parceria com o sistema público para qualificar essas equipes, mesmo que de forma online.
Há um olhar mais atento hoje para a obesidade no país?
Essas medicações despertaram na população a consciência da obesidade ser uma doença. Porque antes era muito comum vermos pessoas falando “sou obeso, mas sou saudável”. Mas sabemos que só o fato de ter obesidade, só o depósito extra de gordura já vai elevar o risco de doenças, é uma questão de tempo.
O que sabemos hoje sobre uma comparação entre o tratamento com as cirurgias e com as canetas?
Temos publicações em revistas grandes como JAMA, Nature, fazendo esse comparativo e mostrando que a cirurgia é muito mais potente a longo prazo. Porque, quando se opera, não interferimos apenas na produção dos hormônios GLP-1 e GIP, que são os que as canetas simulam. Há uma série de outros que são modificados e muitos outros mecanismos metabólicos que se somam e melhoram o perfil do paciente. Então, em muitos casos, a cirurgia é mais duradoura, mais custo-efetiva e mais potente para melhorar o paciente.
E já existem estratégias que combinem os dois?
Sim, eu mesmo já faço isso no consultório, não tenho nenhum preconceito com as canetas. Elas vieram para somar o arsenal terapêutico. Tenho um paciente que estava em cadeira de rodas, com um IMC de quase 60 e já demonstrava uma dificuldade para respirar. Não podemos operar de cara um paciente assim, então usamos a medicação para perder peso antes da cirurgia. Outra combinação é aquele paciente que operou, mas abandonou o tratamento e, 10 anos depois, retorna ao consultório com uma recidiva da obesidade. Também temos introduzido a medicação para tentar resgatar a perda de peso obtida com a bariátrica.
Mas existe alguma discussão sobre diretriz oficial em relação a isso?
Alguns serviços já incorporaram em seus protocolos essa combinação com as drogas, mas aqui no Brasil ainda não de forma oficial porque, a nível público, a Conitec (Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS) foi desfavorável à incorporação dessas medicações no SUS no ano passado, muito por conta do custo. É um valor ainda quase impensável se pensarmos em oferecer a todos que têm indicação. Então precisamos mesmo de diretrizes para saber quais públicos conseguimos atender agora.
A cirurgia ainda carrega um estigma muito grande em relação à segurança. Como é hoje, há ainda muitos riscos?
Hoje o risco é extremamente baixo desde que a cirurgia seja realizada em um centro de referência com profissionais capacitados. As ferramentas que usamos melhoraram muito, são muito mais modernas. As fístulas eram muito comuns, hoje são raras. Então o risco está baixo, chega a ser similar ao de operar uma vesícula, fazer uma cesariana.
Quais são as técnicas mais usadas?
As mais comuns sempre foram a sleeve e o bypass. A sleeve é a que você apenas diminui o tamanho do estômago, e a bypass é a que você faz um desvio do estômago para o jejuno (porção central e intermediária do intestino delgado). Mas, desde o ano passado, outras modalidades cirúrgicas passaram a ser permitidas, que têm maior potência, para os pacientes mais graves, que metabolicamente estão com mais complicações.
O Globo