O Ministério da Justiça enviou nesta semana ofícios a mais de 50 órgãos públicos solicitando a devolução de policiais federais cedidos para auxiliar magistrados. Os documentos foram assinados na noite de quarta-feira, 17, pelo secretário-executivo do MJ, Ademar Borges, e têm como justificativa oficial atender a uma "diretriz" de reforço ao combate ao crime organizado. O MJ foi procurado, mas não se manifestou até o fechamento desta reportagem.
Nos bastidores da Polícia Federal, a medida é lida como retaliação política. O alvo, segundo fontes ouvidas pela reportagem, seria o gabinete do ministro do STF André Mendonça, responsável por dois dos inquéritos mais sensíveis ao governo Lula: o de fraudes no Banco Master e o de desvios em aposentadorias do INSS. Delegados comentaram entre si que "tem algum delegado incomodando o Planalto", já que, se o alvo fosse servidores em órgãos do Executivo, bastaria exonerá-los da função.
O nome mais citado nos bastidores é o do delegado Thiago Marcantonio, que assessora diretamente o ministro Mendonça nos dois inquéritos. Com passagem pela Lava Jato, Marcantonio concentra parte significativa das investigações que podem atingir aliados do governo federal, o que, segundo fontes da PF, tem gerado crescente desconforto no Planalto. A articulação para o retorno dos delegados teria envolvido diretamente o presidente Lula e o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues.
O próprio Lula havia admitido publicamente, em 23 de abril, que determinou o retorno de delegados que estariam "fingindo trabalhar". Na ocasião, afirmou que "só vai ficar fora aqueles que forem secretários de Estado". Agora, com os ofícios formalizados, uma ala da PF avalia que se trata de interferência política direta do presidente da República e que as investigações sobre o Master e o INSS podem ser as mais afetadas pela medida.