Os estados brasileiros caminham para encerrar 2026 com um déficit fiscal de R$ 6 bilhões, segundo projeções da XP Investimentos, revertendo completamente o superávit de R$ 6,6 bilhões obtido em 2025. Até abril, a despesa total dos governos estaduais cresceu 6,5% acima da inflação, o dobro do aumento real da arrecadação, que ficou em 3,3%. O economista Tiago Sbardelotto, responsável pelo levantamento, afirma que o padrão era esperado: "Quando existe espaço fiscal, esses entes tendem a aumentar a despesa acima dos anos anteriores."
O espaço fiscal a que Sbardelotto se refere veio de três fontes simultâneas. A disponibilidade de caixa positiva de R$ 29 bilhões no fim de 2025 permitiu que governadores queimassem reservas neste ano. O Propag, aprovado em janeiro de 2025, renegociou dívidas dos estados com a União em condições generosas, com parcelamento em 30 anos e juros de no máximo 2% reais. E a PEC dos Precatórios, de setembro de 2025, esticou o prazo de pagamento de dívidas judiciais de 60 para 300 meses, liberando recursos que antes estavam comprometidos. Juntas, essas três medidas deram aos governadores uma margem inédita para gastar, e eles não hesitaram em usá-la.
Os casos mais graves são conhecidos. Minas Gerais entrou o ano faltando R$ 11 bilhões em caixa. O Rio Grande do Norte, com R$ 3 bilhões negativos, foi apontado pela XP como "o que mais preocupa" entre todos os estados, com gastos crescendo 17,7% contra apenas 5,3% de alta na receita. Alagoas, Distrito Federal e Acre também partiram de caixa negativo. Maranhão e Mato Grosso completam o grupo dos que mais estão gastando acima do que arrecadam. No total, Tocantins, Goiás, Rio Grande do Norte, Paraná e Mato Grosso do Sul já estão com as contas no vermelho em 2026.
O pesquisador Cláudio Hamilton, do Ipea, pondera que nem todo aumento de gasto em ano eleitoral é catastrófico, especialmente para estados que reduziram significativamente seu endividamento nos últimos anos, casos de Alagoas, Santa Catarina e o próprio São Paulo. Mas ressalva que, para Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro, que combinam dívida alta com déficits crônicos, a situação é outra. O economista Cláudio Frischtak, da Inter.B Consultoria, é mais direto: esses estados "só não quebram porque o STF não deixa", concedendo liminares que suspendem pagamentos e liberam governos de abater suas dívidas com a União.
A conta dessa farra fiscal de 2026 será cobrada a partir de janeiro de 2027, quando novos governadores tomarem posse e descobrirem o tamanho da herança. Orçamentos comprometidos com restos a pagar, caixa zerado ou negativo, limites da Lei de Responsabilidade Fiscal estourados e capacidade de investimento próxima de zero. A previsão da XP de que os investimentos dos estados subirão 40% neste ano soa como boa notícia, mas é, na verdade, o prelúdio de um jejum. Quem gasta tudo antes da festa não tem o que servir no dia seguinte.