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Governo do Rio tinha funcionários fantasmas em todos os órgãos públicos; conheça quem são os suspeitos

Não passam pelas catracas dos locais de trabalho. Não fazem login em computadores. Nem acessam o Sistema Eletrônico de Informações (SEI), usado para criar, tramitar e assinar documentos oficiais. A partir desses critérios, o atual governo do Rio passou a rastrear, no funcionalismo público do estado, os casos de “alta criticidade” — nome técnico que qualifica os comissionados que, aparentemente, são “fantasmas”. Um levantamento da Controladoria Geral do Estado (CGE), iniciado no fim de março, chegou a uma conclusão contundente: todos os 77 órgãos da máquina fluminense tinham funcionários com esse perfil, que supostamente não trabalhavam.

O GLOBO foi às ruas para apurar quem são essas pessoas que recebiam salário sem dar expediente e que, nos últimos meses, foram exoneradas pelo governo Ricardo Couto. A maioria era ligada a políticos da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj), à gestão anterior ou a ex-titulares de pastas estaduais.

Marcelo Cabral D'Almeida é um dos cerca de 200 exonerados da Secretaria estadual do Ambiente e está na lista de “alta criticidade”. Ele afirma que seu trabalho era, majoritariamente, em campo, em visitas técnicas a praças e outros locais públicos na Zona Oeste do Rio, como o Pico da Pedra Branca.

— Ficava na rua, mas, frequentemente, assinava o ponto — diz ele. — Fazia registros de conservação do local, acúmulo de resíduos, necessidade de poda técnica, degradação, arborização — acrescenta.

Ao ser questionado se enviava esses registros ao seu chefe e a quem ele respondia na secretaria, ele diz não lembrar o nome de seu gestor:

— Nem lembro o nome da pessoa no primeiro momento, tipo um supervisor.

Marcelo é filho do ex-vereador e ex-funcionário comissionado do Instituto Estadual do Ambiente (Inea) Marcelino Almeida — que deixou o cargo na pasta em abril. Estava nomeado na Subsecretaria de Manutenção de Áreas Verdes Urbanas, com salário de R$ 10.903,66. As equipes de reportagem foram a dois endereços ligados a ele. No primeiro, funciona um polo de reabilitação da Secretaria de Estado da Juventude e Envelhecimento Saudável. No segundo, em um condomínio de alto padrão em Vila Valqueire, na Zona Sudoeste da cidade, uma mulher que se identificou como irmã dele atendeu.

— Vocês estão batendo na casa das pessoas exoneradas? — perguntou ela, acrescentando que seria melhor que o irmão esclarecesse a questão. — Depois que os irmãos crescem, não sabemos o que cada um faz, cada um tem a sua vida. Nem quero saber o que ele faz — conclui ela, enquanto se distanciava.

Por WhatsApp, Marcelo propôs falar pessoalmente sobre o assunto. Depois, recuou, mas respondeu pelo aplicativo de mensagens. Disse que seu desligamento não causou surpresa, por se tratar de um cargo de livre nomeação.

— Não entendi muito, mas como eu já sabia que era um cargo do qual, a qualquer momento, eu poderia sair, então não senti muito — disse o ex-comissionado, admitindo que foi indicado ao cargo pelo ex-secretário da pasta Bernardo Rossi. — Foi via Bernardo Rossi que tudo começou. Nós nos conhecemos em um evento, e ele se interessou para que eu fizesse esse trabalho em uma área que eu conheço bem.

Embora tenha afirmado que Bernardo Rossi se interessou pelo “seu trabalho na área”, Marcelo reconheceu não possuir formação no campo ambiental, o que “não exigiram” dele.

Ele integrava uma das duas subsecretarias da Seas que tiveram todos os funcionários exonerados e, em seguida, foram extintas pelo atual governo, entre outros motivos, devido às suspeitas de serem todos fantasmas. Na dele, eram 14 cargos, segundo fontes, com a maioria dos comissionados indicados pelos irmãos Luciano Vieira (PSDB) e Léo Vieira (Republicanos), deputado federal licenciado e prefeito de São João de Meriti, respectivamente. Já na Subsecretaria de Conscientização Ambiental, foram liquidadas 37 vagas. A estrutura era comandada pela vereadora de Campos dos Goytacazes Thamires Rangel (PMB), filha do deputado estadual Thiago Rangel (PMB), preso em maio deste ano suspeito de estar envolvido em fraudes na Secretaria estadual de Educação.

Em nota, Rossi negou ter nomeado fantasmas e afirmou que parte dos funcionários trabalhavam in loco. Thamires também defefendeu sua atuação na pasta e negou irregularidades.

Outros dos lotados nessas subsecretarias localizados pelo GLOBO apresentaram justificativa parecida com a de Marcelo, de que faziam trabalhos externos. Foi o caso de Allen Carvalho, líder comunitário na Barreira do Vasco, na Zona Norte, que teve salário líquido de R$ 6.040,64 e carga horária de 40 horas semanais na Subsecretaria de Manutenção em Áreas Verdes Urbanas, onde batia “ponto manual”. Ao GLOBO, Allen não especificou as suas atribuições na pasta.

— Eu não tive nem tempo de trabalhar direito, fiquei dois meses lá. Cumpri expediente, meu trabalho era na rua, era trabalho externo. Aí, quando veio esse novo governador, fez as exonerações — disse ele.

Desde 23 de março, já foram exonerados mais de 4.283 comissionados na gestão do governador em exercício, o desembargador Ricardo Couto. A economia estimada até o fim do ano gira em torno de R$ 230 milhões, valor que ainda pode subir.

Só entre março e maio, houve uma enxurrada: 1.767 deixaram o governo na condição de fantasmas — o que representa uma economia de quase R$ 15 milhões por mês. Os primeiros alvos foram as secretarias da Casa Civil, de Governo e do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), em um trabalho interno apelidado de “laboratório”. A partir dessa experiência, foi instituída uma auditoria geral, dirigida pelo GSI com auditores do CGE.

— Pontos eletrônicos, mecanismos de acesso às instalações e registro de login nas atividades públicas restritas aos funcionários seriam medidas imprescindíveis para prevenir o que diagnosticamos nos relatórios das auditorias — afirmou o secretário de Governo e coordenador do GSI, delegado Roberto Lizandro Leão.

Só na Casa Civil, foram aproximadamente 1,2 mil exonerados até agora. A pasta teve subsecretarias inteiras extintas: a Adjunta de Projetos Especiais, onde 32 perderam seus cargos, e as de Gastronomia e de Ações Comunitárias e Empreendedorismo, ambas com 11 pessoas lotadas em cada.

Os resultados, em alguns casos, são reveladores, como na Seas. Lá, havia 128 pessoas apenas no gabinete do secretário da pasta, das quais 110 — ou 86% — jamais acessaram o sistema. Em outra secretaria analisada, a de Ciência, Tecnologia e Inovação (Secti), detectou-se que, dos 150 servidores em cargos em comissão, apenas 90 tinham estação de trabalho.

Entre os servidores em cargo comissionado que passaram pelo crivo dos auditores do estado, há outro caso de pai e filho. Marcus Wilson Von Seehausen e o filho, João Antonius Von Seehausen, também fazem parte da lista de exonerados, em 30 de abril e 18 de maio, respectivamente.

Marcus, lotado na Seas, recebia salário líquido de R$ 12.212,72. Segundo fontes do governo, não há registro de que ele fizesse login nos computadores da pasta nem de que acessava o local de trabalho. Natural de Petrópolis, tem histórico político na cidade: foi presidente do PTB local em 2008, secretário municipal de Administração e Recursos Humanos em 2018 e chefe de gabinete do ex-deputado estadual Marcus Vinicius Nescau (PTB), preso na Operação Furna da Onça, em 2019, que apurou o recebimento de propinas mensais por parlamentares — Marcus Von Seehausen chegou a ser apontado como responsável por receber os valores destinados ao deputado. Depois, aproximou-se do deputado estadual Bernardo Rossi (União), também de Petrópolis, que foi secretário da Seas — cargo que explicaria a lotação de Marcus como seu chefe de gabinete.

João Von Seehausen, por sua vez, tentou uma vaga de vereador em Petrópolis em 2024, pelo MDB, e ficou como suplente. Antes, havia sido lotado na Secretaria das Cidades e, depois da eleição, foi nomeado para a Secretaria da Casa Civil, com salário líquido de R$ 10,3 mil.

O GLOBO passou um dia em Petrópolis em busca de pai e filho, percorrendo três endereços ligados a eles. Em duas casas no distrito de Correas, não havia sinais de que continuassem morando ali, apesar de os endereços constarem em processos do Tribunal de Justiça. Num terceiro endereço, uma loja de tecidos de Marcus perto da Rua Teresa, um funcionário informou que o patrão fazia tratamento de saúde no Rio e morava na Barra da Tijuca. A reportagem deixou contato, mas não houve retorno.

João, que é advogado criminalista, só atendeu ao telefone no segundo dia de tentativas, com ajuda de parentes. Disse não ser “fantasma”, que assinou o ponto no dia em que saiu e que atuava em campo — mas não autorizou o uso de suas declarações na reportagem.

Já na cidade de São João de Meriti, O GLOBO encontrou Sintilaine Alessandra de Souza Silva, nomeada entre março e maio na Subsecretaria de Manutenção de Áreas Verdes, uma das áreas extintas na Seas. Alegando estar se recuperando de uma cirurgia, ela falou com a equipe do GLOBO por um número de telefone informado por sua prima, que atendeu à porta.

Sintilaine, que fez campanha para a família Vieira na cidade, não soube dizer por que ficou tão pouco tempo no cargo. Ao ser questionada sobre suas atribuições, perguntou por que teria de responder a essas perguntas. Sobre a quantia mensal que recebia do estado, alegou receber apenas uma pensão pela morte do filho. Em abril, Sintilaine recebeu R$ 494 de pensão, além dos R$ 9,2 mil pela Seas. Quando indagada sobre a suspeita de ser fantasma, ela disse:

— Não tenho nada a declarar. Estou doente.

Em nota, os irmãos Léo e Luciano Vieira negaram terem indicado pessoas a cargos no governo.

‘Missionária digital’
Era na Seas também que estava lotada, entre janeiro de 2025 e maio de 2026, Bruna Castello Branco Costa Motta, conhecida como a “blogueirinha de São Marcos”, com cerca de 16 mil seguidores no Instagram e 50 mil no TikTok, onde se apresenta como “missionária digital” e prega a fé católica e a evangelização de jovens. Ela foi uma das exoneradas sob a classificação de “alta criticidade”. Ela ainda aparece em fotos com políticos em eventos religiosos, como o vereador Diego Faro (PL), o deputado estadual Fred Pacheco (PL) e do irmão Marcio Pacheco, presidente do Tribunal de Contas do Estado. Os irmãos negaram que a indicaram ao cargo e Faro não respondeu.

Bruna tinha 25 anos quando sua nomeação foi levada à Casa Civil, em dezembro de 2024, e publicada no Diário Oficial menos de um mês depois. Assumiu o cargo de Adjunto I, símbolo DAI-4 — função de livre nomeação. Documentos analisados pelo GLOBO não trazem informações sobre o tipo de serviço que ela exercia. A Coordenadoria de Pessoal da Seas certificou apenas que ela acumulou 41 dias de férias entre 2025 e 2026, no valor de R$ 9.657,78.

No LinkedIn, no entanto, onde se descreve como publicitária, analista de marketing e profissional de gestão de projetos e comunicação, consta um registro profissional que coincide temporalmente com sua passagem pela secretaria: “Coordenadora de marketing no governo do Estado do Rio de Janeiro”, cargo que, segundo o perfil, teria sido exercido em tempo integral entre janeiro de 2025 e junho de 2026.

A equipe de reportagem do GLOBO a procurou em endereços que seriam ligados a ela e seus familiares, um deles em Jacarepaguá, na Zona Sudoeste. Mas somente por telefone que ela foi localizada. Numa primeira ligação por vídeo, apareceu num ambiente interno, com teto branco ao fundo. Em seguida, numa segunda chamada, por áudio, disse estar "em trânsito" e que poderia falar depois. Depois, passou a repetir "alô?", como se estivesse com problemas de sinal, até a ligação cair.

Até o momento, 60 dos 77 órgãos passaram pela auditoria geral nas três últimas semanas. A previsão é que essas pastas já auditadas gerem uma economia de R$ 355 milhões em um ano, incluindo décimo terceiro e férias. Segundo um auditor ouvido pelo GLOBO sob reserva, o "bom senso" também integra a análise dos casos de “alta criticidade”, já que podem existir situações específicas — cabendo ao gestor da pasta assumir o risco de justificar eventuais exceções.

Cada órgão já recebeu relatório individualizado com as inconsistências identificadas, e os secretários da Casa Civil, Flávio Willeman, e de Governo, Roberto Leão, fixaram prazo para que os gestores apresentem suas listas de fantasmas e promovam as demissões. Os exonerados entram numa lista especial e não poderão retornar ao órgão de origem. Entre as secretarias com maior redução de comissionados estão Trabalho (78,6%), Esporte e Lazer (75,6%), Turismo (73,3%) e Cultura, Tecnologia e Inovação (65,6%).

Leia os posicionamentos na íntegra:
Bernardo Rossi:

"O ex-secretário de Estado do Ambiente e Sustentabilidade Bernardo Rossi nega de forma categórica a alegação de que servidores nomeados durante sua gestão fossem “fantasmas”. Trata-se de uma acusação grave, que exige provas individualizadas e não pode se sustentar em suposições ou generalizações.

Os servidores exerciam atividades vinculadas às atribuições da secretaria, muitas delas desenvolvidas em campo, in loco, junto aos municípios, em programas como o Limpa Rio, além de vistorias, fiscalizações, monitoramento e acompanhamento de obras e projetos ambientais."

Márcio Pacheco:

"Márcio Pacheco esclarece que, além de sua atuação na vida pública, também exerce um trabalho de evangelização como cantor católico, participando regularmente de eventos religiosos em diferentes cidades. Nessas ocasiões, é natural que tire fotografias com dezenas ou até centenas de pessoas que solicitam um registro.

A mulher que pode estar ao lado dele na imagem mencionada pela reportagem não faz parte de seu círculo de convivência e não possui qualquer relação pessoal com ele. Márcio Pacheco não a conhece. A fotografia provavelmente foi feita no contexto de um evento público, como ocorre rotineiramente com inúmeros participantes que pedem para registrar o momento.

Assim, a existência de uma foto em um evento aberto não pode ser interpretada como indicativo de vínculo, proximidade ou qualquer tipo de relação entre Márcio Pacheco e a pessoa retratada."

Fred Pacheco:

"Essa pessoa (Bruna Castello Branco) não foi indicada por mim nem tampouco pelo meu irmão".

Léo e Luciano Vieira:

"O prefeito Léo Vieira e o deputado federal Luciano Vieira esclarecem que não realizaram qualquer indicação das pessoas mencionadas para cargos no Governo do Estado. Ambos desconhecem as nomeações e não têm qualquer participação na composição da referida subsecretaria"

Thamires Rangel:

"Thamires Rangel recebe com estranheza as declarações divulgadas pela atual gestão da Secretaria de Estado do Ambiente e Sustentabilidade, que não refletem os resultados alcançados durante sua atuação à frente da subsecretaria. Durante quase oito meses de trabalho intenso, atuou com dedicação e compromisso para apresentar resultados concretos, especialmente para as regiões Norte e Noroeste Fluminense, que historicamente demandam atenção, investimentos e ações efetivas.

A assessoria reafirma o compromisso da vereadora Thamires Rangel com a transparência, a verdade dos fatos e a defesa de um trabalho sério, responsável e voltado para atender às necessidades da população. Da mesma forma, ressalta a importância de um jornalismo pautado pela apuração responsável, pelo contraditório e, sobretudo, baseado em verdades."

O Globo

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