A falta de planos concretos para a política fiscal dos dois principais candidatos à presidência coloca um prêmio de risco no mercado de juros futuros.
A baixa visibilidade vinda de ambas as campanhas, tanto de Luiz Inácio Lula da Silva quanto de Flávio Bolsonaro, deixa dúvidas para os próximos anos, segundo especialistas.
O mercado responde com a inclinação da curva de juros, pelo aumento da diferença entre as taxas de curto e longo prazo — esse ‘spread’ chegou a superar 50 pontos-base no início da semana, perto dos maiores níveis desde março.
A tendência de piora e as dúvidas dos investidores se consolidaram depois dos encontros privados na Faria Lima e falas públicas de membros da equipe econômica de ambos os lados nas últimas semanas.
“O mercado está muito carente de notícias mais claras”, disse o CEO da SulAmérica Investimentos, Marcelo Mello, em entrevista. “E a melhor forma de enxergar como o local está vendo o cenário é no juro, nominal e real.”
A Faria Lima quer saber qual será a regra fiscal para controle das contas públicas de ambos os candidatos. Os investidores questionam o atual arcabouço fiscal do governo Lula e ainda não ouviram da oposição uma solução para a trajetória da dívida pública, em meio a um orçamento engessado.
Sem isso, a taxa de juros seguirá alta, o que torna os ativos de risco pouco atraentes e amplia os resgates bilionários que têm drenado a indústria de fundos, segundo especialistas.
“Agora já está na hora de começar a fazer conta. Então, o discurso de ‘vamos prestar atenção ao fiscal’ se torna insuficiente neste momento”, diz Artur Wichmann, CIO na XP Inc., em entrevista às margens da Expert XP. “Está na hora de sair do mundo dos conceitos e entrar no mundo das medidas.”
Nenhum dos dois candidatos à frente da disputa pela presidência no momento “tem propostas suficientemente críveis para estabilizar a dívida pública”, disse Isabela Fukase, gestora de renda fixa da Tivio Capital. “O gasto mais pesado, que são as despesas obrigatórias, sequer é citado. É tudo muito raso.”
Na semana passada, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, prometeu a uma plateia repleta de gestores que o governo seguiria melhorando o fiscal “custe o que custar”. A promessa veio dias depois de os jornais locais reportarem que Sérgio Gabrielli, coordenador do plano de governo de Lula, sinalizou a investidores um Estado grande, o contrário do que defendem. A campanha tem desde então reforçado que Gabrielli não fala como porta-voz dos planos econômicos.
O governo Lula preocupa a Faria Lima por historicamente ser mais disposto a realizar gastos públicos, com uma estratégia de ajuste ligada ao aumento de impostos.
Já Flávio é visto como alguém que poderia ter uma política fiscal mais alinhada às ideias de Paulo Guedes, ex-ministro da Economia de seu pai, Jair Bolsonaro. Entretanto, os encontros com Daniella Marques, integrante da campanha, foram lidos como sem propostas concretas para estabilizar a trajetória da dívida pública, segundo pessoas familiarizadas com o assunto.
Além disso, Flávio pisa num campo minado para não perder votos com promessas impopulares, já que perdeu tração nas pesquisas com a divulgação do áudio em que pede dinheiro a Daniel Vorcaro, do Banco Master, para um filme sobre seu pai. O senador nega irregularidades.
Em entrevista à CNN neste mês, Daniella Marques prometeu uma PEC com três frentes: reformular a governança fiscal, aprimorar os mecanismos de controle da trajetória da dívida e corte de gastos, sem detalhar como o fará.
Pesquisa AtlasIntel divulgada nesta quarta-feira mostrou Lula seis pontos percentuais à frente de Flávio em eventual segundo turno, por 49% a 43%.
“Tão logo essa eleição passe, o mercado vai cobrar uma atitude fiscal”, diz Ruy Alves, sócio na Kinea Investimentos. “Se você não tiver um ajuste fiscal, o mercado vai fazer esse ajuste para você.”
O Globo