A decisão de Alexandre de Moraes de mandar a Polícia Federal ouvir Flávio Bolsonaro em investigação por suposta calúnia contra Lula recoloca uma pergunta incômoda no centro do debate: por que o mesmo rigor não aparece quando o presidente é acusado de ultrapassar os limites contra adversários políticos?
Flávio é investigado por ter associado Lula a crimes graves em uma publicação sobre Nicolás Maduro, como tráfico de drogas, lavagem de dinheiro e apoio a terrorismo. Se houve imputação falsa de crime, a apuração é legítima. O problema está na aparente assimetria institucional.
Poucas semanas antes, Lula chamou filhos de Bolsonaro de “traidores da pátria” e citou o enforcamento ao falar de punição histórica a traidores. A frase foi dita em evento público, por um presidente da República, com transmissão oficial e mirando adversários identificáveis.
A defesa de Lula pode alegar metáfora política, exagero retórico ou erro histórico, já que quem foi enforcado foi Tiradentes, não Joaquim Silvério dos Reis. Ainda assim, a questão permanece: se falas agressivas de opositores merecem investigação, por que uma declaração presidencial com referência a enforcamento não recebe a mesma cobrança?
O peso institucional de Lula torna o episódio ainda mais sensível. Um presidente não fala como militante comum. Suas palavras têm alcance, autoridade e capacidade de influenciar apoiadores, especialmente em um ambiente eleitoral marcado por radicalização e violência política.
O Brasil já viu esse roteiro antes. Quando Bolsonaro falou em “fuzilar a petralhada”, petistas acionaram a Justiça e trataram a fala como incitação. Agora, diante de uma declaração dura de Lula, parte do campo governista relativiza o episódio como força de expressão. A régua muda conforme o lado político.
A democracia exige critério único. Investigar Flávio pode ser correto, mas ignorar a fala de Lula transmite a impressão de seletividade. Se o combate à violência política é sério, precisa valer para todos, inclusive para o presidente da República.