A campanha eleitoral é um prato cheio para oportunismo e alianças de conveniência que passam ao largo de qualquer convergência de ideias em torno de um projeto de país. O apoio declarado pelo presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), à reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) é um belo exemplo disso.
Motta passou os últimos anos distante do campo petista e não economizou derrotas e constrangimentos ao governo. Sua gestão nem sequer puniu os deputados que ocuparam a Mesa Diretora e tomaram sua cadeira em protesto pela anistia ao ex-presidente Jair Bolsonaro. Agora, às vésperas da eleição, Motta descobriu que Lula “converge com aquilo que pensamos ser o melhor para o País”. Ora vejam.
A conta não fecha, a começar pela visão de ambos sobre as emendas parlamentares. Ao menos em seu programa de governo, Lula classifica como “grave distorção” o atual modelo de elaboração e gestão do orçamento federal. Já Motta defende com entusiasmo o cofre público nas mãos do Parlamento e afirma que as emendas são instrumentos legais “para atender às demandas dos municípios, das comunidades mais distantes”. Não se trata de uma divergência lateral, mas do cerne da disputa de poder entre Executivo e Legislativo nos últimos anos.
Mas ideias e projetos parecem perder importância quando a conveniência eleitoral fala mais alto. Motta tem interesses bastante concretos na aproximação. Pretende continuar exercendo influência sobre o comando da Câmara na próxima legislatura e trabalha pela eleição do pai, Nabor Wanderley (Republicanos), ao Senado. Há meses busca aproximá-lo de Lula, cuja popularidade na Paraíba pode ser um ativo importante na disputa estadual. O apoio presidencial, portanto, vale muito além de uma fotografia de campanha.
Lula também faz suas contas. Depois de passar boa parte do terceiro mandato submetido à força crescente do Congresso e à instabilidade de sua base parlamentar, interessa ao presidente cultivar desde já uma relação com quem poderá continuar exercendo influência em 2027. A aproximação oferece a Lula a perspectiva de alguma governabilidade futura. O mesmo acontece com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), que atuou para que seu partido se mantivesse neutro nas eleições, mas agora também ensaia uma reaproximação com o petista. Às vésperas da eleição, antigos atritos parecem ter prazo de validade.
Seria até saudável que partidos diferentes conseguissem se entender em torno de projetos para o País. O problema é quando, ao procurar as razões da aproximação, aparecem cargos, palanques, presidências de Casas legislativas e interesses familiares, mas quase nenhuma ideia em comum. É esse o retrato pouco edificante de parte das alianças que se formam nesta campanha. Convicções que pareciam inegociáveis ficam subitamente flexíveis, adversários descobrem afinidades e diferenças profundas deixam de ser tão importantes quando entra na conversa a permanência no poder.