Até aqui, a disputa pelo Palácio do Planalto tem sido marcada por crises, ataques e tentativas de desgaste dos adversários, por vezes mais do que pelo detalhamento de propostas. Com o início oficial da campanha, neste domingo (16), chega a hora em que os candidatos à Presidência terão de responder a uma pergunta básica de uma eleição: o que pretendem fazer se forem eleitos?
Em um pleito já marcado pela polarização e por altos índices de rejeição, os programas de governo ajudam a mostrar como cada candidato pretende se diferenciar e qual projeto oferece ao eleitor.
Candidato à reeleição, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tenta transformar a experiência de governo em seu principal ativo. A vantagem é poder apresentar como propostas medidas que já estão em execução ou que fazem parte da agenda petista, como a regulamentação das redes sociais, a defesa da soberania nacional e o fim da escala trabalhista 6 por 1.
Ao mesmo tempo, Lula terá de apresentar razões para um novo mandato e mostrar o que pretende fazer daqui para frente para um eleitorado que já conhece seu estilo de governar. A campanha também será atravessada por desgastes que vêm sendo explorados pela oposição, como as investigações envolvendo o filho Fábio Luís Lula da Silva -- o Lulinha --, a crise do INSS e a percepção de insegurança.
Flávio tenta transformar herança política em projeto próprio
Flávio Bolsonaro (PL) herda o espólio político do pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, mas enfrenta o desafio de imprimir uma identidade própria à candidatura.
O programa de governo é uma das ferramentas dessa construção. Entre as propostas apresentadas estão o endurecimento da política de segurança pública, a redução da maioridade penal em determinados casos, o corte de despesas e uma nova relação com o STF (Supremo Tribunal Federal) e com os Estados Unidos.
Por outro lado, adversários avaliam que pesam contra Flávio a inexperiência no Executivo e o desgaste provocado por episódios que já foram explorados politicamente, como o caso Dark Horse e as conversas com Daniel Vorcaro, do Banco Master.
À direita, outros candidatos tentam mostrar que existe espaço para uma alternativa à polarização entre Lula e o bolsonarismo. É nesse grupo que aparece Ronaldo Caiado (PSD).
Caiado aposta na segurança para se diferenciar
O ex-governador de Goiás tem como principal aposta a segurança pública. A estratégia é transformar os resultados obtidos no estado em uma espécie de cartão de visitas nacional, em um momento em que o candidato ainda busca ampliar o grau de conhecimento entre os eleitores.
Caiado também vem antecipando sugestões de nomes que poderiam integrar um eventual governo, com a aproximação de figuras de peso para reforçar a imagem de uma candidatura preparada para assumir o Executivo.
O desafio é encontrar espaço no eleitorado de direita. Caiado tenta convencer esse público de que existe uma alternativa a Flávio Bolsonaro sem ficar preso a uma disputa interna do próprio campo político. Isso impõe um dilema à campanha: até onde atacar Flávio sem transformar a candidatura em apenas mais uma frente de oposição ao bolsonarismo?
A discussão apareceu novamente nesta sexta-feira (14), após uma troca de farpas entre integrantes dos dois grupos.
O coordenador da campanha de Flávio, Rogério Marinho (PL-RN), rebateu uma declaração de Gilberto Kassab, presidente do PSD e vice na chapa de Caiado, de que Flávio não teria chances de vencer a eleição.
Marinho afirmou que o PSD mantém três ministérios no governo Lula e acusou a legenda de atuar como uma espécie de linha auxiliar para a reeleição do petista.
A troca de farpas mostra como a disputa pelo eleitorado de direita tende a ser um dos pontos de tensão da campanha. Para Caiado, atacar Flávio pode ajudar a abrir espaço. Ao mesmo tempo, pode dar a percepção de que sua candidatura está mais preocupada em enfrentar o bolsonarismo do que em apresentar uma alternativa própria.
Zema enfrenta dilema semelhante
O ex-governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), também vive o desafio de como se posicionar diante de Flávio Bolsonaro e da polarização.
O programa de Zema apresenta propostas de perfil econômico liberal, como uma política de privatização generalizada de estatais e a defesa da saída do Brasil do Brics para uma aproximação com a OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico).
Nas redes sociais, porém, o candidato ganhou maior projeção pelas críticas aos ministros do Supremo Tribunal Federal.
A dificuldade, portanto, é combinar uma agenda econômica própria com uma estratégia política capaz de disputar o eleitorado de direita sem ficar à sombra da candidatura de Flávio.
Renan Santos e o espaço mais distante da política tradicional
Renan Santos (Missão) busca uma posição ainda mais distante da política tradicional. O candidato apresenta propostas como ações de desfavelização, a redução do número de municípios e o fim do atual modelo do Bolsa Família.
A candidatura, no entanto, também entrou no radar nesta semana por um episódio envolvendo o próprio partido. A legenda foi citada em uma denúncia de filiação fraudulenta de Flávio Bolsonaro ao Missão.
Lula e Flávio concentram a disputa
A pesquisa Quaest divulgada nesta sexta mostra como, apesar da presença de outros nomes, Lula e Flávio continuam concentrando a maior parte da disputa.
Lula aparece com 43% das intenções de voto em um eventual segundo turno, contra 40% de Flávio Bolsonaro, numa diferença que vem se estreitando.
No primeiro turno, os dois também chegam a concentrar 69 pontos percentuais quando somadas as intenções de voto.
A fotografia reforça o peso da polarização, mas também evidencia o tamanho do desafio para os dois principais candidatos. Lula e Flávio chegam ao início oficial da campanha como os dois principais polos da disputa — e também como os candidatos com os maiores índices de rejeição.
Para Caiado, Zema e Renan, o desafio é encontrar um espaço próprio em uma eleição dominada por dois grupos políticos. Para Lula e Flávio, a tarefa é ampliar a vantagem sem transformar a rejeição ao adversário no único combustível da campanha.
A partir do início oficial da corrida eleitoral, não basta mais convencer o eleitor de quem ele não quer. Os candidatos terão de dar razões concretas para serem escolhidos ao Planalto.
CNN Brasil