Em 2022, Lula foi eleito presidente do Brasil não pelas qualidades de suas propostas ou pela memória positiva de seus governos anteriores, mas por ter sido o candidato mais anti-Bolsonaro disponível. As urnas naquele ano puniram — por uma maioria muito pequena, deve-se dizer — uma gestão bolsonarista que produziu caos entre as instituições da República desde os primeiros dias e que, por ideologia e teimosia, fez pouco caso de uma crise sanitária que acabou ceifando a vida de 700 mil pessoas no País. A questão que se coloca para a eleição deste ano é se estamos fadados a ver um repeteco dos mesmos temas que opuseram Lula e Bolsonaro quatro anos atrás ou se, enfim, assistiremos a um debate concreto sobre o futuro que o Brasil quer percorrer.
Os atos políticos deste domingo, 16, o primeiro dia da campanha eleitoral de 2026, revelam as duas coisas: a julgar pelos discursos dos dois candidatos que lideram, com folga, as pesquisas de intenção de voto, tudo aquilo que gera aversão ao adversário será fartamente explorado, mas também haverá uma tentativa de disputar quem tem a melhor resposta para os problemas que afligem o País. Ainda é cedo para afirmar que isso levará a um debate propositivo, mas os discursos de hoje delinearam diferenças que vão além da polarização irracional. É um bom começo.
O presidente Lula e o senador Flávio Bolsonaro, que concorre com a bandeira do pai ex-presidente, foram, cada um a seu modo, bem-sucedidos em reforçar as diferenças que têm entre si. Lula procurou demonstrar sua popularidade pela conexão histórica com a classe trabalhadora. Flávio, pelo legado de Jair Bolsonaro. Lula disse que sua força política vem da lealdade dele à militância petista — a massa de vermelho reunida em um estádio em São Bernardo do Campo, na região metropolitana de São Paulo. Já Flávio sugeriu que sua força política vem da lealdade da multidão de verde e amarelo, representada pelos presentes na praia de Copacabana, ao seu pai.
Lula tratou de relembrar os períodos sombrios da pandemia de covid-19 e da maneira como o governo anterior (de Jair Bolsonaro) lidou com ela. Essa seria, segundo Lula, a principal razão por que ele busca um quarto mandato: não deixar que a direita volte ao poder. E, pelos exemplos que deu e pela menção à pandemia, ele se referia especificamente à direita bolsonarista (até porque o seu vice, Geraldo Alckmin, atualmente no PSB, já foi considerado pelo PT um adversário de direita; mas era uma outra direita).
Flávio também replicou 2022 ao seu modo. Afinal, dedicou uma boa parte do discurso a repetir bordões antipetistas, ecoando escândalos de corrupção do passado (mensalão e petrolão) e do presente (apresentando seu vice, o deputado Alfredo Gaspar, como campeão da CPI do INSS e das acusações a Lulinha, filho do presidente).
Mas as diferenças também apareceram em temas mais atuais. Lula fez referência ao interesse de Estados Unidos e China nos minerais estratégicos existentes no Brasil, para reforçar sua ideia de defesa da soberania nacional. Flávio ensaiou uma tática para esvaziar esse discurso, afirmando que “soberania” é o que falta aos brasileiros no dia a dia da insegurança pública e dos territórios ocupados por bandidos.
Lula deu a sua visão de como se deve combater o crime organizado: pegando os chefes das quadrilhas que moram em coberturas de bairros nobres, não matando pequenos bandidos nas favelas. Segundo Lula, a falta de oportunidades transforma jovens em bandidos. Por isso, a solução é gastar para dar acesso à educação, o que é mais barato do que manter um preso na cadeia. Flávio apresentou as suas soluções, bem diferentes: reduzir a maioridade penal, tratar organizações criminosas como grupos terroristas e fazer castração química de estupradores.
Na economia, Lula exaltou números de geração de emprego, de crescimento da indústria e de abertura de vagas em universidades para emoldurar o slogan “isso é pensar no futuro”. Já Flávio marcou sua diferença em relação à gestão petista, que ele definiu como gastadora, ao afirmar que vai colocar as contas públicas em ordem para eliminar as causas do endividamento das famílias. “Essa dívida não é sua, essa dívida é do Lula”, disse ele.
Em comum, os dois candidatos não resistiram ao pendor para o vitimismo. Lula lembrou das vezes em que esteve preso — a primeira, na ditadura, com certa nostalgia, e a segunda, por corrupção, com ressentimento. Flávio definiu o pai, Jair, que está em prisão domiciliar por tentativa de golpe de Estado, como um “injustiçado” e tratou de se colocar em um papel semelhante de perseguido político: “Está todo mundo contra mim”.
Lula e Flávio também escancararam a mesma convicção de que precisam cortejar o voto das mulheres a qualquer custo para vencer esta eleição. Ambos criticaram a violência doméstica e prometeram combatê-la. “Mulheres deste País, não baixem a cabeça nunca”, disse Lula. Agressores de mulheres vão “mofar na cadeia”, prometeu Flávio.
Uma campanha eleitoral existe justamente para expor as diferenças entre os candidatos, de forma que o eleitorado possa fazer a melhor escolha. Se nesse debate não resvalarem para a deslegitimização e para a desumanização do adversário, já será um avanço em relação a 2022.
Diogo Schelp - Estadão