Há algo de revelador na forma como parte da grande imprensa tem tratado a escolha de Alfredo Gaspar como vice na chapa de Flávio Bolsonaro. Não é exagero dizer que, desde o anúncio, o deputado alagoano se tornou alvo de uma avalanche de reportagens, colunas e "análises de bastidores" que, somadas, dão a impressão de que a preocupação real não é com a gravidade das acusações que pesam sobre ele, mas sim com o tamanho do problema eleitoral que ele pode representar para os adversários.
É sintomático: em poucas horas após o anúncio, publicou-se que o nome de Gaspar seria "fraco" para a chapa, que não "empolgaria" a Faria Lima, que geraria "surpresa" e desconforto até em aliados. No dia seguinte, veio a notícia de que a PGR finalmente pediu diligências sobre uma denúncia que dormia havia cinco meses.
A coincidência de datas — o mesmo dia do anúncio da candidatura — não passou despercebida nem mesmo aos mais desavisados. Se o objetivo fosse puramente investigativo, por que o processo levou quase 150 dias para sair do papel e só andou exatamente na semana em que Gaspar virou notícia nacional?
Não se trata aqui de minimizar a gravidade de uma acusação de estupro de vulnerável — tema que exige seriedade máxima e apuração rigorosa, sem prazo de validade política. O problema é outro: a forma como o noticiário tem misturado, quase que propositalmente, a necessidade legítima de cobertura jornalística sobre uma denúncia grave com um evidente esforço de desidratar a candidatura antes mesmo que ela deslanche.
Quando a imprensa gasta mais linhas especulando sobre o "prejuízo eleitoral" da denúncia do que sobre os fatos concretos do processo, o jornalismo deixa de ser espelho da realidade para se tornar arma de guerra política.
O excesso de "fritura" em tão pouco tempo — múltiplas colunas por dia, fontes anônimas do Planalto avaliando o nome como "fraco", vazamentos calculados sobre movimentações no STF — não é acidente. É estratégia.
E o fato de tamanha artilharia estar sendo direcionada logo nos primeiros dias de uma pré-campanha sugere que, no fundo, há um temor real: o de que Alfredo Gaspar, com seu discurso de segurança pública e combate à corrupção, tenha justamente o potencial de mobilizar o eleitorado que a chapa de Flávio Bolsonaro precisa para ser competitiva.
Resta ao leitor atento perceber a diferença entre jornalismo investigativo e jornalismo de destruição reputacional por antecipação.
A verdade sobre as acusações contra Gaspar precisa vir à tona — seja para condená-lo, seja para absolvê-lo. Mas a pressa suspeita da imprensa em transformar cada capítulo do processo em manchete parece revelar menos preocupação com a Justiça e mais com o receio de que, apesar de tudo, o "vice fraco" possa se revelar, na prática, um adversário forte demais.