Entre todos os efeitos colaterais provocados pela escolha de Alfredo Gaspar como vice na chapa de Flávio Bolsonaro, o mais concreto e imediato não tem relação com denúncias criminais nem com desconforto ideológico — tem relação com aritmética eleitoral pura. Ao tirar Gaspar da disputa pelo Senado em Alagoas, Flávio entregou, de bandeja, as duas vagas da Câmara Alta para justamente os dois nomes que a ala bolsonarista mais gostaria de ver fora do jogo: Arthur Lira (PP) e Renan Calheiros (MDB).
Os números não deixam dúvida sobre o tamanho da perda. Segundo o Paraná Pesquisas, Gaspar liderava a corrida ao Senado alagoano com 40,4% das intenções de voto, à frente de Lira (39,8%) e tecnicamente empatado com Renan (36,4%). Era, portanto, o único nome capaz de romper o acordo político que Lira e Renan já haviam costurado — inclusive com aval do próprio presidente Lula e do ex-prefeito de Maceió João Henrique Caldas (PSDB) — para garantir as duas cadeiras sem sobressaltos. Com Gaspar fora do tabuleiro estadual, esse pacto se torna praticamente inatacável.
O paradoxo é evidente: Flávio Bolsonaro escolheu Gaspar como vice justamente por ele representar, nas palavras da própria campanha, um "escudo anticorrupção" e uma voz forte de combate à criminalidade, capacidades comprovadas em sua atuação como relator da CPMI do INSS. Só que, ao fazer isso, o senador neutralizou a única candidatura capaz de furar o bloco político que Lira e Calheiros vinham arquitetando havia meses em Alagoas — dois nomes que, décadas atrás, ocuparam a presidência da Câmara e do Senado, respectivamente, e que representam exatamente o tipo de "velha política" que o bolsonarismo diz combater.
Não é força de expressão dizer que a escolha de Gaspar ajuda diretamente os adversários locais do próprio campo político de Flávio. Diversos veículos já classificaram o movimento como um presente inesperado para Lira, que agora deve herdar boa parte do eleitorado de direita que só apoiava Gaspar. A ironia é dura: ao tentar fortalecer a chapa presidencial com um discurso de renovação e enfrentamento à corrupção, o PL pode ter, na prática, contribuído para blindar em Alagoas justamente os símbolos do "toma lá, dá cá" que o partido tanto ataca no discurso nacional.
Esse é, sem dúvida, o maior defeito estratégico da escolha de Alfredo Gaspar como vice — não pelo que ele representa nacionalmente, mas pelo vácuo que deixa para trás em seu próprio estado, exatamente no colo dos adversários que o bolsonarismo mais gostaria de derrotar.