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Fator Lulinha: o dia em que a PF suspeitou de negócios do filho do presidente

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva está na condição de candidato que não tem direito ao erro. Com a reeleição no seu horizonte, elevado percentual de rejeição e um adversário que erra muito mais, o petista parece ter margem estreita para não correr o risco de repetir o antecessor e não manter-se no posto.

Hoje, sua principal vulnerabilidade vem de casa. É o fator Lulinha. Seu filho Fábio Luís ocupa reincidentemente manchetes de jornais sempre com o nome vinculado a empresários com interesses no governo. Isso não é de hoje e Lula já deveria ter dado um jeito para não se repetir. Mas repetiu.

No passado recente, Lulinha era o fantasma a assombrar o governo do PT durante a CPI do INSS. Agora, em ano eleitoral, é personagem real a contaminar a tentativa de reeleição.

Na última semana, Lulinha passou a ser alvo de três inquéritos. Qualquer um que é pai deveria saber que não é fácil ver os rebentos tendo que se explicar à polícia. No caso de uma figura pública, como o presidente, há um agravante. O que o filho faz ou deixa de fazer recai sempre na conta do pai.

A política tem disso. Pode ser intolerante, intransigente e implacável até mesmo em relação a assuntos familiares. Afinal, figuras públicas devem prestar contas a todo mundo.

A novidade de Lulinha investigado em inquéritos que tramitam no Supremo Tribunal Federal é o último capítulo de uma coleção de casos envolvendo o filho do presidente. Há uma história que se repete. Tem sempre um homem de negócios querendo se associar a Lulinha, passear com Lulinha, agradar Lulinha. Pelos dotes de Lulinha? A resposta não pode ser ingênua. O motivo sempre é o pai do rapaz. E agradar e estar bem com o filho é o primeiro passo para estar bem ou tentar estar bem com o pai dele.

A história reproduzida a seguir tem 18 anos. Aconteceu em 2008 e está registrada nos arquivos da Polícia Federal. Em janeiro daquele ano, Lulinha foi a Foz do Iguaçu. Visitou a empresa Itaipu binacional e teve tratamento vip do então presidente Jorge Samek.

Turismo para ver as cataratas? Poderia ter sido, se Lulinha não tivesse cumprido compromissos muito além do que um mero turista faria. Visitou a empresa, reuniu-se com a diretoria. Passeou pelas instalações sempre acompanhado de Samek. À noite, os dois ainda cruzaram a fronteira para ir jantar em Puerto Iguazu, no “El Quincho del Tio Querido”, restaurante que serve carnes na vizinha cidade da Argentina.

A passagem de Lulinha por Foz foi descrita num relatório de inteligência da Polícia Federal. O documento foi classificado como confidencial. Ficou perdido nos arquivos até que veio a Lei de Acesso à Informação e definiu que o prazo de sigilo já tinha caducado.

Em 2013, por exigência legal, uma relação de documentos que perderam o sigilo na PF foi postada no site do Ministério da Justiça. A lista está lá até hoje para quem procurar.

São 71 documentos. Um deles tem como assunto “enriquecimento ilícito”. Refere-se justamente ao relatório sobre Lulinha, como quem desconfiou dos negócios do filho do presidente.

O documento em si não fala nada de enriquecer ou não. Apenas descreve que a PF precisou ajudar agentes da presidência na segurança de Lulinha. Cita que o filho do presidente estaria interessado em tratar de um “canal de TV”, mas não dá mais detalhes. Era o segundo mandato de Lula e seus familiares tinham a proteção do Gabinete de Segurança Institucional.

O documento já sem sigilo foi divulgado com tarjas sobre o nome de Lulinha e do pai dele. Mas a informação pode ser facilmente recuperada.

Quando essa história veio a público, a assessoria de Itaipu deu a seguinte explicação: Fábio Luís esteve em Foz do Iguaçu entre 21 e 23 de janeiro de 2008. Visitou a Usina Hidrelétrica de Itaipu “a passeio”, sendo recebido pelo então diretor-geral brasileiro da Itaipu, Jorge Samek.

“Fábio fez uma visita institucional, também conhecida como visita técnica, que costuma ser mais demorada e diferente da visita turística pelo interior da usina, que tem duração de duas horas, em média. A visita foi conduzida pelo próprio Samek e passou pelas cotas 144 (condutos forçados) e 225 (topo da barragem), hall do Edifício da Produção, sala de comando central (CCR), sala de despacho de carga, catedrais, eixo de uma unidade geradora em funcionamento, estação blindada a gás hexafluoreto de enxofre (SF6), e cota 40 (antigo leito do Rio Paraná), dentre outros pontos estratégicos”, explicou a assessoria da binacional.

A assessoria esclareceu ainda que “Fábio nunca fez qualquer negócio com a Itaipu Binacional, seja direta ou indiretamente” e que apenas existia uma “relação de amizade” entre Samek e Fábio Luís. Procurado esta semana, o advogado Marco Aurélio Carvalho, que defende Lulinha, diz que o cliente já foi investigado por muita coisa no passado e sempre foi inocentado. Fazenda no Pará, mansão em Punta del Leste. Nada era dele, mas diziam que era, conta o advogado.

O episódio de Itaipu, no entanto, fala por si. Que turista visitaria uma hidrelétrica e seria recebido por seu diretor-presidente? Talvez nenhum.

Ser filho do presidente deve mesmo ter seus benefícios. Mas o ideal seria separar as coisas. Os filhos não deveriam ter negócios que avançam na direção do governo do pai.

Flávio Bolsonaro está na mesma conta. Criou empresa de consultoria jurídica quando Jair era presidente. Prestou serviços para uns e outros, mas ainda faz sigilo disso.

A questão é que, em temporada eleitoral, negócio mal-explicado de filho é problema para o candidato.

Francisco Leali Estadão

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