A avalanche de revelações sobre a relação entre o ministro Alexandre de Moraes e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro dominou por completo o noticiário político nos últimos dias, e um efeito colateral chama atenção: o caso envolvendo Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, praticamente desapareceu do radar da grande imprensa — beneficiando diretamente o presidente Lula em plena reta final de campanha.
Até o final de agosto, o tema dominava manchetes. Documentos revelados por veículos como Veja, Folha e G1 mostravam que a Polícia Federal apontava indícios de que a atuação de Lulinha, em parceria com a lobista Roberta Luchsinger e o empresário Fernando Bittar, teria "extrapolado os limites éticos e legais" da atividade de representação de interesses junto ao governo federal, incluindo o Ministério da Saúde. Mensagens recuperadas pela PF — mesmo após tentativas de exclusão — indicavam sociedade oculta entre os três para prospectar negócios milionários junto à administração pública, com referências diretas ao próprio presidente da República e a ministros de Estado.
Um levantamento da Revista Fórum, divulgado em 24 de agosto, já mostrava a intensidade da cobertura: em apenas 96 horas, 412 matérias mencionaram Lulinha, contra apenas 24 sobre outro personagem político do momento — uma proporção 17 vezes maior. O caso movimentava colunas, ganhava capas de revista e alimentava o debate sobre ética no núcleo do poder.
Passada a primeira semana de setembro, contudo, o cenário mudou drasticamente. Com a eclosão do escândalo envolvendo Moraes e o Banco Master — que já resultou em mais de 50 pedidos de impeachment, notícia-crime na PGR e pedidos de prisão contra o ministro —, o noticiário nacional voltou quase integralmente sua atenção para a crise no Judiciário. O caso Lulinha, que ainda tramita sob a relatoria dos ministros André Mendonça e Flávio Dino no STF, com pedido da PGR para que a investigação seja enviada à primeira instância, deixou de ocupar as manchetes com a mesma frequência.
Para analistas políticos, essa mudança de foco não é fortuita nos seus efeitos práticos: enquanto a imprensa e a classe política concentram energia no confronto entre Legislativo e STF, o filho do presidente ganha um respiro estratégico bem-vindo em plena campanha eleitoral. A pressão pública que se acumulava sobre o Palácio do Planalto em torno de possíveis irregularidades de tráfico de influência perde intensidade, diluída pela urgência de um escândalo ainda maior e mais explosivo.
Resta saber se essa trégua na cobertura será passageira — assim que a poeira da crise Moraes baixar, é provável que o caso Lulinha volte a ocupar seu espaço na pauta nacional — ou se a sobreposição de crises acabará, na prática, funcionando como um escudo político involuntário para o presidente Lula.