O procurador-geral da República, Paulo Gonet, era avisado por WhatsApp por seu aliados à medida que os membros do Conselho Superior do Ministério Público Federal votavam a favor de uma investigação criminal contra ele por suas relações com o banqueiro Daniel Vorcaro. Ele não compareceu presencialmente à sessão, até porque o cálculo feito nos bastidores era que seria uma deliberação rápida sem qualquer sobressaltos.
O resultado final, porém, foi muito diferente do previsto. Por apenas um voto de diferença, por 5 a 4, o Conselho Superior arquivou o pedido de investigação contra Gonet. Ao final da sessão, o procurador-geral da República confidenciou a interlocutores ter ficado decepcionado com a votação. Aliados consideraram uma “injustiça” contra Gonet. Nos últimos dias, os conselheiros faziam segredo e evitavam antecipar seus votos. O resultado deve gerar um racha na cúpula da Procuradoria-Geral da República para o restante da gestão de Gonet.
A representação apresentada pelo partido Novo pedia que o Conselho decidisse pelo impedimento de Gonet para atuar na investigação do caso Master e por abrir investigação contra ele por prevaricação. Composto por dez subprocuradores-gerais da República, último grau da carreira do Ministério Público Federal, o Conselho Superior não tem competência legal para apurar a conduta ética do procurador-geral da República ou afastá-lo de uma investigação.
A lei prevê apenas a deliberação pela abertura de uma investigação por crime comum contra o chefe da instituição. Por isso, o tema não causava preocupação a Gonet. A avaliação feita por seus aliados era que, apesar do desgaste das mensagens e da foto fumando charuto com Vorcaro, não havia indícios de crimes na sua conduta.
O primeiro voto foi proferido pelo relator, Francisco Sanseverino, contra o afastamento de Gonet. Ele também não apontou indícios de crimes. A surpresa veio do segundo voto, da conselheira Janice Ascari. Ela abriu divergência e afirmou que as explicações dadas por Gonet deveriam ser confrontadas com uma apuração preliminar, com o objetivo de verificar se correspondiam à verdade. Com esses argumentos, votou para que o Conselho designasse um subprocurador-geral da República responsável por tocar a investigação contra o chefe do Ministério Público Federal.
A disputa se deu de forma alternada, voto a voto. Por uma coincidência, os votos favoráveis à investigação foram proferidos pelos conselheiros que se sentaram do lado direito do presidente da sessão, enquanto os votos favoráveis a Gonet saíram das cadeiras à esquerda. Nos bastidores, já se desenhava um resultado apertado. A posição de Janice foi acompanhada pelos subprocuradores Samantha Dobrolwski, José Adônis Callou e Ana Borges.
Dentre eles, Ana Borges é o nome mais identificado como uma ala de oposição a Gonet. Os demais têm boa relação e bom trânsito com integrantes da atual gestão. Nos últimos dias, em conversas com aliados de Gonet, desconversaram sobre o posicionamento que adotariam na sessão e mantiveram em segredo os votos.
Mesmo nutrindo essa boa relação, eles avaliaram que isso não podia significar um alinhamento automático e consideraram que as menções a Gonet nos diálogos de Vorcaro mereciam ser alvo de apuração – algo que até hoje nunca havia ocorrido na história do Ministério Público Federal. Eles defenderam que Gonet não poderia ter assinado uma manifestação que pedia a nulidade do relatório da Polícia Federal que citava seus diálogos e que, por isso, deveria ser apurada a possibilidade de prevaricação.
Aliados de Gonet saíram em defesa do procurador-geral da República durante a sessão. Argumentaram que a viagem para um evento patrocinado pelo Master não gerava nenhuma espécie de ilícito penal e a foto, apesar de poder ser passível de críticas, tampouco significava algum crime. Disseram também que a manifestação apresentada por Gonet estava devidamente fundamentada e não viram problemas na sua apresentação.
O voto final ficou nas mãos de Nicolao Dino, que presidiu a sessão por ser o vice-presidente do conselho. Irmão do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Flávio Dino, Nicolao começou seu discurso fazendo críticas à foto de Gonet, mas prosseguiu defendendo a atuação do procurador-geral da República no Caso Master.
Após seu voto, Nicolao decretou o resultado final e encerrou rapidamente a sessão. Os conselheiros se olharam sem trocar palavras e deixaram o local. Ao final, Gonet foi avisado do resultado e se revelou chateado com os votos que pediram sua investigação.
Nos bastidores, seus aliados consideraram injusta a iniciativa de investigá-lo e citaram que os elementos contra o procurador-geral eram frágeis. Afirmam, por exemplo, que diante de tantas notícias já divulgadas sobre cifras milionárias pagas por Vorcaro, não faria sentido investigar Gonet apenas por ter feito viagem a um evento e participado de uma degustação de uísque. Também frisaram que o contato de Gonet nem estava salvo no celular de Vorcaro, o que demonstraria a inexistência de amizade entre eles.
A avaliação no Ministério Público Federal é que a votação deve marcar uma mudança na composição da gestão de Gonet. Antes, ele conseguiu trazer para sua gestão os integrantes de diferentes grupos da instituição. Agora, a cúpula da Procuradoria-Geral da República presenciou um racha que deve significar uma recomposição de forças.
Estadão