O texto é do jornal Estado do São Paulo, o Estadão:
Do Plano Cohen à campanha de 1989, passando por disputas mais recentes, a política brasileira sempre conviveu com a mentira — e a eleição de 2026 não seria diferente. É essa a tese defendida por Rodrigo da Silva em coluna publicada nesta terça-feira (29/9) no Estadão.
Segundo o autor, o episódio envolvendo Nossa Senhora Aparecida teve início às 21h50 de 23 de setembro, quando o influenciador Jeferson Monteiro — criador do perfil "Dilma Bolada" — publicou no X que "católico não vota em nenhum Bolsonaro" que quisesse retirar da santa o título de padroeira do Brasil. Minutos depois, outro perfil espalhou que grupos evangélicos pressionariam Flávio Bolsonaro a fazer exatamente isso caso eleito.
Na sequência, a jornalista Maria Cristina Fernandes, da GloboNews, comentou sobre uma proposta real — mas antiga, de 2007, apresentada pelo deputado Victório Galli e arquivada em 2008 — sem citar Flávio Bolsonaro. Ainda assim, o trecho passou a circular como se fizesse a associação direta ao candidato.
A repercussão e o papel do governo
Rodrigo da Silva destaca que, em apenas dois dias, o Instituto Democracia em Xeque contabilizou quase 1 milhão de publicações e 8,5 milhões de interações sobre o tema, com a esquerda responsável por dois terços dos posts monitorados entre perfis políticos. A primeira-dama Janja e o vice-presidente Geraldo Alckmin também se manifestaram publicamente sobre o caso.
O colunista chama atenção para uma mensagem atribuída a George Marques, coordenador-geral de Estratégia e Informação da Secom, pedindo que se "parasse de divulgar a retratação" e que o assunto continuasse "rolando" — mesmo após a GloboNews ter corrigido a informação e pedido desculpas. A Secom afirma que o perfil de Marques é pessoal.
Uma história de mentiras eleitorais
O texto de opinião situa o episódio dentro de uma linhagem histórica de fraudes políticas no Brasil — das cartas forjadas contra Artur Bernardes em 1921, ao Plano Cohen de 1937, à campanha de Carlos Lacerda contra Jango em 1955, até o caso Míriam Cordeiro contra Lula em 1989. Segundo o autor, a mentira política passou de uma produção artesanal para uma estrutura industrial, citando exemplos como o blog fictício "Seja Dita Verdade" (2010) e os núcleos de Militância em Ambientes Virtuais do PT (2011).
Rodrigo da Silva também menciona o "kit gay" atribuído por Bolsonaro a Lula em 2018, as falas de Bolsonaro sobre vacinas e urnas eletrônicas, e episódios em que o TSE determinou a remoção de conteúdos falsos usados pela própria campanha de Lula contra Bolsonaro em 2022.
Para o autor, o episódio da padroeira se conecta a essa tradição: o mesmo Jeferson Monteiro que iniciou a polêmica atual já havia sido palestrante em um "Camping Digital" promovido pelo PT em 2014 e chegou a ser nomeado gerente da EBC em 2023.
Conclusão do autor
"Entre as cartas de 1921 e a padroeira de 2026, a disposição de mentir permanece intacta. O que mudou foi o custo e a escala. A mentira já não é mais artesanal. E hoje, toma mais tempo do debate público do que as propostas dos candidatos", conclui o jornalista em seu artigo de opinião.