A entrevista concedida pela empresária e lobista Roberta Luchsinger à CNN Brasil no último sábado (17) reabriu o debate sobre uma sequência de decisões do governo federal que, segundo análise do Jornal 96, teria funcionado para dificultar ou atrasar o avanço das investigações envolvendo Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente Lula. Assista:
Na entrevista, Luchsinger revelou que ministros como Camilo Santana, ex-titular da Educação, e o ministro das Comunicações recorriam a ela e a Lulinha para conseguir reuniões com o presidente, alegando dificuldade de acesso direto a Lula. "Ninguém conseguia acessar Lula. E aí recorriam a mim e a Lulinha para levar projetos, para dizer quais eram as prioridades, para conseguir marcar reuniões deles com o presidente da República", teria afirmado a lobista, segundo o relato do programa.
De acordo com a análise, porém, o episódio mais relevante não está apenas nas revelações da entrevista, mas no histórico de decisões tomadas ao longo da investigação que, segundo os comentaristas, sistematicamente dificultaram seu avanço:
Delegado afastado do caso. No início do ano, um delegado da Polícia Federal havia solicitado judicialmente a quebra de sigilo de Lulinha. Pouco depois, esse mesmo delegado foi retirado da investigação, numa decisão atribuída à direção-geral da Polícia Federal, comandada por Andrei Rodrigues — descrito no programa como próximo ao presidente Lula.
Demora de sete meses no envio do sigilo quebrado. Mesmo após a determinação judicial de quebra de sigilo, a Polícia Federal, já sem o delegado responsável pelo pedido, levou sete meses para encaminhar o material ao ministro André Mendonça, do STF, relator do caso.
Questionamento ignorado. André Mendonça chegou a questionar formalmente por que a PF havia afastado o delegado responsável pelo pedido de quebra de sigilo. Em resposta, a própria Polícia Federal teria recorrido ao governo federal alegando que o ministro estaria interferindo nas investigações.
Suspensão da quebra de sigilo aprovada pela CPMI do INSS. A CPMI do INSS, sob relatoria de Carlos Viana e presidência de Alfredo Gaspar, conseguiu aprovar a quebra de sigilo de Lulinha e de Roberta Luchsinger. Pouco depois, o ministro Flávio Dino, do STF, suspendeu essa decisão em despacho classificado pelos comentaristas como inédito.
Sigilo sobre visitas ao Palácio da Alvorada. Segundo o programa, haveria ainda uma proibição à divulgação de dados sobre quantas vezes Roberta Luchsinger teria visitado o Palácio da Alvorada, residência oficial da Presidência da República.
A análise do Jornal 96 também destaca uma mudança no discurso do presidente Lula sobre o caso: após inicialmente negar conhecer Roberta Luchsinger, o presidente passou a afirmar que o assunto seria "problema da Polícia Federal", chamando a lobista de "pilantra" — ao mesmo tempo em que, em entrevista na quinta-feira (15) à TV Globo, não teria sido questionado sobre o tema, e no debate de domingo (18) afirmou acreditar na inocência do próprio filho.
Até a publicação desta matéria, Lulinha permanece residindo na Espanha, sem mandado de busca e apreensão, pedido de prisão ou apreensão de passaporte, enquanto três inquéritos sobre o caso seguem em tramitação sob segredo de justiça. A reportagem não localizou manifestação oficial do Palácio do Planalto, da Polícia Federal ou do STF especificamente sobre as alegações de obstrução levantadas pelos comentaristas do Jornal 96.