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Artigo: 'O peso da abstenção nas pesquisas', escreve Felipe Nunes, diretor da Quaest

Há uma pergunta escondida em toda pesquisa eleitoral: quantas das pessoas que dizem em quem vão votar estarão, de fato, diante da urna? Ela se tornou mais importante à medida que a abstenção cresceu. No primeiro turno presidencial, passou de 18,1% em 2010 para quase 21% em 2022, quando 32,8 milhões de eleitores deixaram de comparecer.

O problema está também em quem falta. A abstenção não se distribui aleatoriamente pela sociedade. Alguns grupos comparecem sistematicamente menos, e suas preferências políticas podem ser diferentes das de quem vota com mais frequência. Se um candidato concentra apoio entre os mais propensos a faltar, desconsiderar essa diferença pode superestimar sua participação nos votos válidos. Retirar brancos, nulos e indecisos da conta não resolve: quem declara intenção de votar em um candidato pode não aparecer no domingo.

Esse foi um dos aprendizados de 2022. Ao analisar o resultado das pesquisas naquela eleição, ficou claro que parte da distância entre as intenções declaradas e a votação de Lula em 2022 se deveu à maior abstenção nos segmentos em que o petista tinha mais apoio.

A ciência política estuda há décadas o que leva alguém a votar. O senso de dever cívico ajuda a explicar a participação mesmo quando a chance de um voto decidir a eleição é mínima. Recursos como tempo, renda, escolaridade e acesso à informação reduzem barreiras ao envolvimento. O hábito também importa: estudos experimentais mostram que votar em uma eleição aumenta a probabilidade de participar das seguintes.

Há ainda a mobilização. Partidos, familiares e redes de convivência estimulam a participação, no que a literatura chama de pressão social pelo voto. Disputas percebidas como apertadas também tendem a aumentar o comparecimento, já que a sensação de que seu voto conta aumenta nesses casos. As emoções completam esse quadro: raiva, entusiasmo e ansiedade afetam a participação e estimulam a participação. A disposição de ir à urna depende, portanto, tanto das condições de vida quanto da importância que aquela eleição assume para cada pessoa. No Brasil, a obrigatoriedade não elimina essas diferenças.

É esse conhecimento que informa as estimativas de votos válidos que a Quaest divulgará neste sábado. Além de divulgar os percentuais de intenção de voto sobre o total do eleitorado, a Quaest vai apresentar também estimativas de votos válidos já considerando a probabilidade de um eleitor comparecer. Nosso modelo de eleitor provável, ou ‘likely voter model’, combina duas dimensões: o perfil de comparecimento e a motivação individual.

O perfil parte do histórico de abstenção dos diferentes subgrupos nas eleições presidenciais de 2010 a 2022. Em estudo apresentado no congresso da Wapor (a Associação Internacional de Pesquisadores de Opinião Pública, na sigla em ingl), em 2025, analisamos mais de 600 mil seções eleitorais, distribuídas por cerca de 101 mil locais de votação. Investigamos como a abstenção se relaciona com a composição demográfica, considerando as diferenças entre locais e eleições. Idade, escolaridade e sexo ajudam a estimar uma probabilidade inicial de comparecimento.

A abstenção é maior entre pessoas com baixa escolaridade do que entre aquelas com curso superior. Em boa parte das faixas etárias adultas, os homens faltam mais que as mulheres. Mas a idade exige cuidado: entre eleitores de 55 a 59 anos, a abstenção ficou perto de 11%; entre os de 70 a 74, chegou a aproximadamente 39%. Mulheres, de ensino fundamental com mais de 70 anos são as que mais tendem a não comparecer, se o perfil de abstenção se mantiver constante.

A segunda dimensão considera a motivação nesta eleição. Medimos o interesse pela disputa, a busca de informação, os resultados que o eleitor mais teme e sua expectativa sobre quem vai vencer. Consideramos também seu histórico de participação e a intenção de ir votar. O conjunto dessas respostas ajuda a estimar o envolvimento de cada entrevistado. Uma pessoa pode pertencer a um grupo historicamente mais sujeito à abstenção e, nesta eleição, estar muito mobilizada para votar. O componente motivacional permite atualizar a estimativa baseada no perfil.

Combinamos as duas dimensões para estimar a probabilidade de comparecimento de cada entrevistado. Essa probabilidade entra na ponderação das respostas, junto aos pesos da pesquisa, conforme registrado no TSE. Depois, recalculamos a participação de cada candidato no total ponderado de intenções de voto em candidatos. Assim obtemos a estimativa de votos válidos. O modelo é agnóstico, não há um tipo de candidato beneficiário definido de antemão.

Um exemplo hipotético ajuda. Imagine uma disputa com dois candidatos, cada um com 40% dos votos totais, e os 20% restantes entre brancos, nulos e indecisos. Pela conversão simples, ambos teriam 50% dos válidos. Suponha, porém, que a probabilidade média de comparecimento seja de 80% entre os apoiadores do primeiro e de 70% entre os do segundo. Os 40 pontos de cada um passam a representar 32 e 28 na soma ponderada. Divididos pelo total de 60, resultam em aproximadamente 53% e 47% dos válidos. Ninguém mudou de candidato: mudou o peso associado à possibilidade de comparecer.

Essa inovação, aplicada pela Quaest nas eleições de 2022 e 2024, exige uma leitura cuidadosa. Há hoje na análise política uma expectativa exagerada de precisão, um certo fetiche pelo número, que transforma estimativas em resultados antecipados. Pesquisas eleitorais capturam intenções de voto. Não adivinham o comportamento futuro do eleitor. Preferências declaradas e comportamentos efetivos são coisas relacionadas, mas diferentes.

O likely voter acrescenta uma estimativa de comparecimento às informações disponíveis durante a coleta. Isso reduz ruído e aproxima expectativas, mas não transforma a pesquisa em prognóstico do resultado. Depois da entrevista, o eleitor pode mudar de ideia, decidir pelo voto útil, encontrar um impedimento para votar ou se mobilizar. A própria divulgação das pesquisas oferece informações que podem influenciar essas decisões.

Somos um termômetro da temperatura eleitoral daquele momento. Ponderar as intenções de voto pelo potencial de abstenção é uma tentativa de aprimorar esse instrumento e reduzir uma fonte conhecida de distorção. O rigor está em medir melhor e explicitar a incerteza. A pesquisa informa uma decisão que continua nas mãos do eleitor. Não a substitui nem a encerra antes da urna.

Felipe Nunes, diretor da Quaest

O Globo

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