Diante dos últimos resultados divulgados pela Quaest e pelo Datafolha, Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) têm na reta final do primeiro turno a menor diferença entre o primeiro e segundo colocado nas pesquisas de eleições para o Planalto desde a redemocratização.
Embora em 2006 e 2022 — as duas corridas mais acirradas de todos os tempos — a diferença do próprio Lula para Geraldo Alckmin e Jair Bolsonaro tenha sido de 6,27% e 5,23% no primeiro turno, respectivamente, as pesquisas de véspera da época não haviam projetado a baixa diferença.
Em São Paulo, a dúvida está mais na diferença que Tarcísio de Freitas (Republicanos) apresentará nas urnas contra Fernando Haddad (PT) do que no resultado em si. Além de ser bem avaliado, Tarcísio acertou na política e não deixou nenhuma terceira via se estruturar no estado e o ameaçar. Carlos Machado, do PCB, e Vera Lúcia, do PSTU, empatados com 2% atrás de Haddad, poderão ter o pior resultado da história de um terceiro colocado em São Paulo. O posto é de Orestes Quércia, em 2006.
Já o Rio chega ao dia da eleição com um terceiro colocado mais competitivo, porém à espera de uma decisão da Justiça Eleitoral. Com a anulação dos votos válidos de Anthony Garotinho, a disputa pode terminar no primeiro turno — feito este de Leonel Brizola, em 1990, Rosinha Garotinho, em 2002, Sérgio Cabral, em 2006, e Cláudio Castro, em 2022.
O fenômeno do não-voto (soma de quem escolhe nulo, branco ou se abstém de ir às urnas) vai explodir no domingo ou manter o padrão da eleição passada?
Devido à marca de 31% de indecisos na pesquisa espontânea da última Quaest — seis pontos percentuais acima da última eleição —, especialistas como o fundador do Ideia, Maurício Moura, imaginam que pode haver um crescimento da escolha pelo não-voto este ano. Além disso, são muitas as pesquisas qualitativas feitas por institutos que mostram o cansaço e desengajamento do eleitor, corroborando a hipótese.
Em entrevista para o Jornal da Globo na terça-feira, Moura projetou que, se o não-voto no primeiro turno chegar ao patamar de 31%, crescem as chances de término da eleição no domingo. A marca é alta se comparada ao índice de quatro anos atrás.
Em 2022, o não-voto no primeiro turno foi de 25,36% (20,95% para abstenção, 2,82% para nulo e 1,59% para branco). Para chegar ao patamar citado pelo fundador do Ideia, o número de eleitores que não escolhe nenhum candidato teria que ser semelhante ao da disputa de 2018, uma eleição marcada pela rejeição à política na esteira da Operação Lava Jato.
Naquele ano, o não-voto chegou a quase 30% dos eleitores (20,33% de abstenção, 6,14% de nulos e 2,65% de brancos). Não houve desfecho no primeiro turno, contudo, porque a soma dos votos do pelotão abaixo de Jair Bolsonaro bateu mais de 24% dos votos com nomes como Ciro Gomes, Geraldo Alckmin, Cabo Daciolo, Marina Silva, Henrique Meirelles, Álvaro Dias e Guilherme Boulos.
A desidratação das candidaturas de Cury, Renan, Caiado e Zema a partir de um voto útil em Lula e Flávio pode fazer a eleição acabar domingo?
No século, as duas vezes em que a eleição no Brasil mais se aproximou de se encerrar no primeiro turno — como com FHC nos anos 90 — foram nos anos de 2006 e 2022. O que há de comum em ambas as disputas é a presença de Lula enfrentando um oponente com mais de 40% dos votos, e um pelotão abaixo pouco competitivo. Há 20 anos, o petista teve no primeiro turno 48,61%; Geraldo Alckmin, 41,64%; Heloísa Helena 6,85%; Cristovam Buarque, 2,64%. Há quatro anos, Lula bateu 48,43% dos votos; Jair Bolsonaro, 43,20%; Simone Tebet, 4,16%; Ciro Gomes, 3,04%.
O último Datafolha colocou em perspectiva a possibilidade de um patamar mais baixo do que em 2006 e 2022 para o pelotão abaixo dos primeiro e segundo colocados. No cálculo de votos válidos, Augusto Cury marcou 4% das intenções de votos, Ronaldo Caiado, 3%, Renan Santos, 3%, e Romeu Zema, 1%. Ao longo da campanha pelas pesquisas do Datafolha, todos já tiveram índices melhores. Cury chegou a marcar 8% das intenções de votos, Caiado, 5%, Renan, 4% e Zema, 2%.
Quais fatores podem impulsionar Flávio na reta final do primeiro turno?
Flávio aposta no fenômeno que se convencionou chamar de “antipetismo de chegada”. Ou seja, um histórico crescimento na reta final de candidatos de oposição ao PT.
Em 2014, Aécio Neves tinha 23% das intenções de votos na última semana de campanha contra Dilma Rousseff (PT). Quando as urnas foram abertas, marcou 33,55% contra a petista. Quatro anos depois, Jair Bolsonaro marcava 38% das intenções de votos no Datafolha da última semana de campanha contra Fernando Haddad, mas atingiu 46,03% dos votos. Em 2022, na campanha pela reeleição, Bolsonaro pontuou 36% na última semana. Acabou tendo 43,20% dos votos contra Lula.
E o que pode impulsionar Lula na reta final?
O presidente tem melhorado paulatinamente a avaliação do seu governo nas últimas semanas. O último Datafolha mostrou um leve avanço da avaliação de ótimo e bom do seu governo (de 32% para 35%).
É natural candidatos sentados na cadeira do Executivo melhorarem a sua avaliação em ano de eleição pela capacidade de anúncios de medidas e uso da máquina. Em 2022, Bolsonaro ficou competitivo contra Lula porque aumentou a avaliação de ótimo e bom do seu governo no Datafolha de 22% em janeiro para 38% em outubro, já durante o segundo turno.
Outra fórmula usada pela campanha petista é a de tentar aumentar a rejeição de Flávio Bolsonaro na reta final, hoje na casa dos 45% segundo o Datafolha — a mesma de Lula. Na véspera do segundo turno de 2022, Jair Bolsonaro tinha 50% de rejeição. Para o cientista político Alberto Almeida, 60% dos eleitores que avaliam o governo Lula como regular hoje votam no petista. Quanto maior a rejeição de Flávio mais votos Lula terá nesse público.
O Globo