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Pesquisa eleitoral – Foto: Divulgação/TSE
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Artigo: José Herval Sampaio Júnior e Breno Tavares - Pesquisas eleitorais, inteligência artificial e democracia em risco: os números que o sistema se recusa a ouvir

Pesquisas eleitorais, inteligência artificial e democracia em risco: os números que o sistema se recusa a ouvir
José Herval Sampaio Júnior e Breno Tavares

Há um fenômeno se consolidando nas eleições de 2026 que ultrapassa os limites da estatística eleitoral e ocupa o centro do debate democrático brasileiro: a explosão no número de pesquisas registradas no sistema PesqEle, do Tribunal Superior Eleitoral, e a crescente utilização desses levantamentos como instrumentos de influência política, formação artificial de narrativas e desinformação em escala industrial.

O que antes servia para medir tendências do eleitorado transformou-se, em muitos casos, em mecanismo de indução psicológica coletiva — não mais apenas para aferir intenção de voto, mas para disputar percepções, criar sensações de viabilidade eleitoral e moldar artificialmente o ambiente político.

O problema não chegou de surpresa. Há uma trilha documental que comprova que vimos denunciando essa deriva há pelo menos quatro anos, em artigos publicados em 2022, 2024 e 2025. Em outubro de 2022, imediatamente após o primeiro turno das eleições presidenciais, já documentávamos que a discrepância entre os resultados das urnas e as pesquisas sinalizava "significativas inconsistências" e levantávamos expressamente "a hipótese da possibilidade de fraudes nas pesquisas eleitorais a transformá-las em peças publicitárias a serviço de determinadas candidaturas."

Em 2024, com exemplos concretos da disputa pela Prefeitura de Natal, denunciávamos que pesquisas do mesmo eleitorado, realizadas no mesmo período por institutos distintos, apresentavam resultados tão díspares que configuravam, "na essência, uma fake news institucionalizada", propugnando mecanismo de certificação prévia de qualidade como condição para a divulgação de pesquisas. Três artigos, três ciclos eleitorais, três alertas ignorados.

Em 2026, os números gritam com uma intensidade que já não permite que ninguém finja não ouvir. No Brasil, até 10 de junho de 2026, foram registradas 944 pesquisas eleitorais no PesqEle, contra 489 no mesmo período de 2022 — crescimento de 93%. Os gastos saltaram de R$ 20,2 milhões para R$ 59,1 milhões, aumento de 191%. No Rio Grande do Norte, o fenômeno é ainda mais expressivo: 33 pesquisas registradas em 2026, ante apenas 13 no mesmo período de 2022 — crescimento de 153%; 377% de aumento nos gastos, que saltaram de R$ 190 mil para R$ 908.820,00; 77% de expansão no número de institutos.

O Estado tornou-se o quarto do Brasil com maior volume de pesquisas registradas neste ciclo. Dado ainda mais revelador: 11 das 33 pesquisas no Rio Grande do Norte — exatamente um terço do total — foram financiadas pelos próprios institutos. Esse autofinanciamento, não ilegal em si, torna-se grave quando os levantamentos deixam de funcionar como instrumentos científicos e passam a operar como produtos políticos destinados à fabricação de percepções.

As distorções podem ocorrer para mais e para menos. "Para mais", quando candidatos aparecem continuamente inflados em levantamentos sucessivos, recebendo cobertura midiática e percepção pública de favoritismo desproporcional à sua real base eleitoral. "Para menos", quando adversários são reiteradamente subestimados, gerando sensação de inviabilidade e redução artificial de competitividade. Em ambos os casos, as pesquisas deixam de apenas refletir o eleitorado e passam a disputar o próprio comportamento do eleitor — fenômeno que Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, em Como as Democracias Morrem, enquadram na lógica da erosão institucional gradual, muito mais perigosa do que as rupturas abruptas.

Felipe Nunes e Thomas Traumann, em Biografia do Abismo, demonstram como o Brasil ingressou numa era de hiperpolarização emocional em que a política opera muito mais por sentimentos do que por racionalidade objetiva. Dan Ariely, em Desinformação, aprofunda essa análise ao demonstrar que pessoas plenamente racionais podem acreditar em conteúdos distorcidos não por ignorância, mas pela exposição contínua a processos de reforço emocional e repetição narrativa.

A repetição produz sensação de verdade; a circulação constante de números cria a impressão de inevitabilidade política. Nasce o chamado voto útil induzido — alimentado não por convicções ideológicas, mas pela engenharia psicológica das percepções eleitorais, causando dano irreparável à liberdade e à consciência do voto.

Se tudo isso já era preocupante quando operado pelos mecanismos tradicionais, a introdução da inteligência artificial no ecossistema eleitoral de 2026 elevou exponencialmente a capacidade de manipulação narrativa. O primeiro nível de impacto é a criação do "eleitor sintético": campanhas já utilizam sistemas que criam perfis simulados de eleitores a partir de dados de grupos reais, substituindo pesquisas qualitativas tradicionais por projeções modeladas conforme os interesses de quem encomendou a simulação.

O segundo nível é a amplificação algorítmica: os algoritmos das redes sociais distribuem números eleitorais que provocam reação emocional — raiva, entusiasmo, medo, esperança — com alcance muito superior ao de dados equilibrados e contextualizados, criando, como identificou o estudo Inteligência Artificial e os Ataques à Eleição 2026, "um coro de vozes aparentemente independentes" que produz uma miragem de consenso popular de forma quase invisível.

O terceiro nível — e o mais insidioso — é a fabricação e amplificação de narrativas a partir dos números: a IA generativa permite que um dado numérico seja transformado, em minutos, em dezenas de peças de conteúdo coerentes entre si, com custo mínimo e escala máxima. A Resolução TSE nº 23.755/2026 representa um primeiro passo regulatório, mas a Justiça Eleitoral condenou apenas 20% dos casos de manipulação digital das eleições de 2024. Se em escala menor a capacidade de resposta institucional já era insuficiente, o que esperar de 2026?

Tudo isso se conecta diretamente com o que temos sustentado ao longo de anos sobre abuso de poder no processo eleitoral. Em Abuso do Poder nas Eleições: Triste Realidade da Política(gem) Brasileira (JusPodivm), demonstramos que o abuso de poder econômico não se esgota nas formas visíveis de compra de votos ou uso da máquina pública — ele também se manifesta quando recursos financeiros são utilizados para construir artificialmente percepções de viabilidade ou inviabilidade eleitoral.

O próprio TSE consolidou o entendimento de que o abuso de poder econômico se configura quando recursos de valor econômico são utilizados para afetar a normalidade e a legitimidade das eleições. A pergunta que permanece sem resposta satisfatória é: uma pesquisa autofinanciada, estrategicamente divulgada e amplificada por IA para produzir percepção artificial de favoritismo ou inviabilidade não se enquadra nessa definição? O registro no PesqEle garante transparência formal, mas não valida a qualidade científica nem a orientação política dos números. E é nessa brecha — transparência formal sem controle material — que o abuso se instala.

Em 2026, o Brasil ingressou numa era em que números eleitorais circulam em velocidade industrial, impulsionados por redes sociais, aplicativos de mensagens e sistemas de inteligência artificial que transformam cada dado em munição narrativa. A democracia corre o risco real de ser substituída por uma guerra permanente de percepções estatísticas.

Por isso, torna-se indispensável que a Justiça Eleitoral avance para além da fiscalização meramente formal dos registros no PesqEle. A complexidade do fenômeno exige mecanismos permanentes de controle qualitativo, transparência metodológica real e monitoramento público capaz de identificar abusos e distorções sistemáticas. Não basta registrar: é preciso auditar.

Não basta publicar: é preciso verificar. Esse esforço não pode ser realizado isoladamente pelo sistema de Justiça; é fundamental construir atuação articulada com universidades, centros de pesquisa, entidades científicas e especialistas em estatística, ciência política, comunicação digital e inteligência artificial. E é preciso que o marco regulatório eleitoral seja revisitado à luz da nova realidade imposta pela IA — revisão normativa que, como alertávamos já em 2022, se tornou urgente e que hoje se tornou imprescindível. Os números gritam. Há quanto tempo ninguém os ouve.

José Herval Sampaio Júnior é Juiz de Direito da 1ª Vara da Comarca de Ceará-Mirim/RN, professor de Direito Eleitoral e Hermenêutica Jurídica na UERN e doutor em Direito Constitucional pela UFPR. Autor, entre outras obras, de Abuso do Poder nas Eleições: Triste Realidade da Política(gem) Brasileira (JusPodivm) e Pré-Campanha e Abuso de Poder: uma Junção Bombástica (JusPodivm).

Breno Tavares Nunes é jornalista, Mestre em Gestão de Processos Institucionais (UFRN) e doutorando em Jornalismo (UFSC).

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