Longe dos holofotes e sem potencial para angariar votos, Michel Temer surgiu na disputa eleitoral no dia seguinte ao primeiro turno. Em um vídeo publicado nas redes sociais, exaltou “um caminho diferente” para o Brasil e declarou apoio a Flávio Bolsonaro, que arrancou na frente na disputa.
Quando presidiu o País, Temer nomeou o amigo Alexandre de Moraes para o Supremo Tribunal Federal (STF). Deixou o Palácio do Planalto em janeiro de 2019. Dois meses depois, foi preso por suspeita de desvio de dinheiro público. Acabou libertado e absolvido - mas declinou na política.
A ascensão de Moraes começou no mesmo ano. Como relator do inquérito das fake news, incomodou o entorno de Jair Bolsonaro. No ano passado, esteve à frente da condenação do próprio pela trama golpista. Pelo conjunto da obra, Moraes deve receber a senha 1 na fila do impeachment se Flávio for eleito.
Ministros do STF - e não apenas os próximos de Lula - atestam nos bastidores que Temer entrou em campo para salvar Moraes. Embora ninguém diga isso em voz alta, a situação remete a uma fala de Riobaldo, personagem de “Grande Sertão: Veredas” frequentemente citado por Cármen Lúcia: “Eu quase que nada não sei. Mas desconfio de muita coisa”.
Mesmo distante das urnas, Temer circula bem na política. No governo Jair Bolsonaro, intermediou soluções para crises entre o Executivo e o STF. Agora, tenta reconstruir a ponte entre o tribunal e a família Bolsonaro.
Temer se aproximou de ministros da Corte nos últimos anos. Em abril de 2024, Kassio Nunes Marques, presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e amigo de Flávio, abriu as portas da própria casa para um jantar em homenagem ao ex-presidente. A festa foi oferecida a pedido de Moraes.
A lista de convidados incluiu o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, e ministros do STF de diferentes alas: Gilmar Mendes e Cristiano Zanin, ligados a Lula; e André Mendonça, indicado ao STF por Jair.
Desde a semana passada, Moraes tem acenado para Flávio. Permitiu que o candidato visitasse o pai na prisão domiciliar. Antes, concedeu progressão de regime a Débora do batom. Na mesma toada, Gilmar Mendes arquivou o pedido de investigação por estupro contra Alfredo Gaspar, o vice na chapa do PL.
Gilmar é próximo de Moraes. Depois do primeiro turno, esteve com interlocutores de Flávio. Ouviu que não vai ter guerra com o Judiciário - e, ao mesmo tempo, que a nova composição do Senado vai pressionar pelo impeachment de ministros do Supremo.
Gente próxima de Moraes diz que ele anda preocupado - porém, não revela o destino que planeja para si mesmo. Se Riobaldo fosse chamado a opinar sobre o caso agora, talvez dissesse: “Rir, antes da hora, engasga”.
Estadão