Depois de ver o governo colher os louros políticos do fim da escala 6x1, a campanha de Flávio Bolsonaro (PL) devolveu o golpe com uma emenda que resgata um projeto do próprio senador de 2019: a redução da maioridade penal de 18 para 16 anos, com responsabilização a partir dos 14 em crimes hediondos. A manobra, articulada por Rogério Marinho (PL-RN), não é apenas uma resposta tática. É uma armadilha desenhada para explodir no palco do próximo debate presidencial, obrigando Lula a tomar uma posição que, qualquer que seja, lhe custará caro.
"Agora que Lula resolveu falar de segurança pública, faltando 11 dias para a eleição, vamos colocar as propostas na mesa. [.] Quero ver Lula e o PT votarem a favor de uma punição mais dura para quem comete crimes hediondos, estupra, mata e aterroriza famílias brasileiras. Chega de discurso. Vamos ver quem, de fato, quer combater o crime", desafiou Flávio Bolsonaro.
O cálculo é cínico, mas eficaz. Pesquisas de opinião mostram, há anos, apoio majoritário da população brasileira à redução da maioridade penal — um tema que atravessa classes sociais e ideologias diante do aumento da violência cometida por adolescentes. Para o PT, no entanto, a bandeira é histórica e doutrinária: o partido se posiciona contra a medida desde sua fundação, sustentando que o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) deve ser preservado e que a resposta à criminalidade juvenil passa por políticas sociais, não pelo encarceramento precoce.
É exatamente nesse ponto que a armadilha se fecha. Se Lula mantiver a coerência histórica do PT e rejeitar a proposta, Flávio terá argumento pronto para apresentá-lo como alguém distante da urgência popular por segurança, alguém que escolhe a cartilha ideológica do partido no lugar da vida de famílias que convivem com a violência. Se, ao contrário, Lula sinalizar abertura ao tema — como já indicam movimentos recentes de sua campanha — romperá com décadas de posicionamento programático do petismo, abrindo flanco para acusações de oportunismo eleitoral e deixando sua própria base histórica desconfortável.
Não há meio-termo confortável. O debate, portanto, não será apenas sobre segurança pública: será o momento em que Lula precisará decidir, diante das câmeras, se trai a maioria da população que pede respostas mais duras contra a violência juvenil, ou se trai a própria trajetória política que o elegeu quatro vezes à Presidência. Qualquer que seja a resposta, Flávio Bolsonaro já colheu o que queria — tirar o fôlego da "pauta positiva" do adversário e empurrar o debate presidencial para o terreno em que a disputa deixa de ser sobre propostas e passa a ser sobre identidade política.