O ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos (PSOL), afirmou nesta sexta-feira (31/10) ver uma "chantagem do mercado" no debate sobre o ajuste fiscal do novo governo do presidente Lula (PT) e defendeu que eventuais cortes de gastos sejam direcionados a privilégios, não ao que chamou de "lombo dos mais pobres". Em entrevista à Folha de S.Paulo, ele disse que a receita para economizar deve passar pela revisão de desonerações fiscais, pelo enfrentamento dos supersalários e por mudanças nas emendas parlamentares impositivas.
"Você não pode contrapor uma chantagem de mercado à vontade popular. Isso é anular a democracia", declarou o ministro.
Boulos citou números para sustentar sua tese: segundo ele, o país tem hoje "quase R$ 600 bilhões por ano em desonerações fiscais" e "R$ 61 bilhões" vinculados a emendas parlamentares impositivas — valores que, na sua avaliação, deveriam ser o alvo prioritário de qualquer esforço de ajuste, em vez de cortes em áreas sociais.
Ao comentar o resultado da eleição, o ministro afirmou que a vitória de Lula sobre Flávio Bolsonaro (PL) representa a derrota de uma agenda de austeridade. "Os governos Lula sempre tiveram equilíbrio fiscal. A diferença é que a gente não aceita ajuste fiscal que corta no SUS e na educação, o tesouraço que o Flávio propunha. Esse programa foi derrotado nas urnas", disse.
As declarações de Boulos ocorrem em um cenário de deterioração dos indicadores fiscais: do fim de 2022 a julho de 2026, a dívida do setor público passou de 71,7% do PIB para 82,5%, segundo a reportagem.