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Lula, candidato, tem plano B em curso

‘Não decidi se vou ser candidato ainda.’ A frase, dita por Lula em entrevista ao ICL News em abril, foi lida menos como expressão de autêntica indecisão do presidente do que como queixume decorrente de suas muitas insatisfações. Lula, segundo repetem os que convivem com ele, está “frustrado” com a resposta do eleitorado ao seu governo. Reclama ainda da imprensa, que não divulga seus feitos, e do PT, que não está empenhado na briga com gana proporcional ao risco da disputa. A declaração de abril ficaria, assim, num ponto intermediário entre a ameaça e o chamado às armas — uma tentativa de Lula de sacudir a própria campanha. Expoentes do governo e do PT, porém, não estão dispostos a ser pegos de calças curtas. Nos laboratórios de Sidônio Palmeira, ministro da Secom, três nomes já foram testados como eventuais substitutos de Lula nas urnas: o ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad, o ex-ministro da Educação Camilo Santana, e o vice-presidente, Geraldo Alckmin.

Nas pesquisas, Haddad e Alckmin, quando apresentados como nomes “apoiados por Lula”, atingem patamares próximos aos do presidente — mas com menor rejeição, assim como Santana.

Haddad se beneficia do recall da eleição de 2018, mas tem a desvantagem de, ao vestir um santo, acabar desvestindo outro. Sua candidatura ao governo de São Paulo é tida como crucial para fazer frente ao governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) e reduzir a vantagem de Flávio Bolsonaro (PL) no estado. Santana tem como principais ativos o bom desempenho à frente da Educação — área do governo mais bem avaliada nas pesquisas — e a força eleitoral no Ceará, que governou por dois mandatos com ampla aprovação. Para boa parte do eleitorado, porém, é pouco mais que um ilustre desconhecido — e ainda pode ser tragado de volta para as eleições estaduais, caso Elmano de Freitas, candidato do PT ao governo do Ceará, se mostre incapaz de conter Ciro Gomes (PSDB).

Alckmin, mais que substituto de Lula, representaria uma tentativa de ampliar o alcance eleitoral da chapa presidencial em direção ao centro. Seu perfil moderado de ex-tucano já foi usado com sucesso em 2022 para dirimir resistências a Lula. Sua grande desvantagem — estar no PSB e ser, para parte do PT, um outsider até hoje —passa ainda por uma questão operacional. Como cabeça de chapa, Alckmin não levaria às urnas o número 13, há quase quatro décadas marca do PT e de seus candidatos. Para estrategistas, a mudança pode gerar confusão entre eleitores e produzir uma onda de votos nulos — variável crítica numa eleição apertada.

Próceres do governo e do PT que tratam do plano B para a candidatura de Lula não acreditam, hoje, que ele desistirá da reeleição, mas afirmam que a campanha precisa estar preparada para a possibilidade da sua ausência na chapa, seja por decisão própria ou por circunstância alheia à sua vontade.

O que motivaria uma decisão como essa? Diante da pergunta, a resposta é sempre a mesma: Lula não encerrará sua biografia com uma derrota para o filho de Jair Bolsonaro, afirma seu entorno, numa sugestão de que uma deterioração nas pesquisas pode ser um gatilho para a desistência. Hoje, no entanto, a aposta palaciana é que Lula melhorará sua avaliação tão logo o confronto com Flávio comece de fato. A polarização beneficiaria o presidente porque permitiria a “desconstrução” do bolsonarista, visto por petistas como despreparado e inconsistente. É certo que, em termos de despreparo pessoal e desavenças no próprio campo, Flávio tem muito a oferecer à campanha de Lula. A questão é saber em que medida a performance do presidente nesta eleição dependerá das ações do antagonista e quanto será resultado da fadiga de seu próprio material.

Thais Oyama - O Globo

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