A explosão que destruiu um galpão no estado de Bolívar, na Venezuela, na noite de sexta-feira (12), não matou apenas Héctor Rusthenford Guerrero Flores, o Niño Guerrero, líder supremo do Tren de Aragua. Matou também uma certeza que durante décadas embalou o sono de líderes criminosos na América Latina: a de que fronteiras, soberania alheia e burocracia diplomática seriam escudos suficientes contra o braço armado dos Estados Unidos.
O ataque, conduzido pelo Comando Sul americano em coordenação com o governo venezuelano, teve precisão cirúrgica. Mas sua verdadeira potência não é militar. É simbólica. Donald Trump fez questão de publicar o vídeo da destruição e cravar: "Os terroristas do Tren de Aragua não têm mais refúgio seguro na Venezuela ou em qualquer outro lugar."
É impossível ler essa frase e não pensar nas cúpulas do Primeiro Comando da Capital e do Comando Vermelho no Brasil. Não por acaso, no final de maio, o Departamento de Estado americano classificou ambas as organizações como grupos terroristas criminais, a mesma designação que precedeu a caçada a Niño Guerrero. A sequência é didática demais para ser coincidência: os EUA classificam, rastreiam, cooperam com o governo local e executam. O PCC e o CV acabaram de entrar na primeira etapa desse roteiro. A pergunta que deveria tirar o sono de suas lideranças é: quanto tempo até a última?
Seria ingenuidade imaginar uma operação militar americana em solo brasileiro nos mesmos moldes. O Brasil é uma democracia consolidada, com Forças Armadas próprias e peso diplomático que tornam uma ação unilateral inviável. Mas o cerco não precisa ser de mísseis para ser asfixiante. Pressão diplomática, sanções econômicas, bloqueio de ativos, compartilhamento de inteligência com cobrança de resultados concretos: os caminhos são muitos.
E há um agravante que as facções brasileiras não podem ignorar: o Tren de Aragua mantinha parcerias operacionais documentadas com o PCC no Norte do país. Quando os EUA matam o líder de um grupo que operava lado a lado com uma facção brasileira recém-classificada como terrorista, a conexão não é sutil. É uma linha reta.
A lógica do medo, ferramenta histórica das facções para subjugar comunidades inteiras nas periferias do Brasil, agora está sendo empregada contra elas mesmas. Os chefes do tráfico que sempre operaram sob a premissa de que o Estado é lento, burocrático e incapaz de alcançá-los assistiram ao mesmo vídeo que o resto do mundo: um prédio verde, um clarão, destroços. O homem mais procurado da Venezuela, eliminado por um míssil guiado disparado por um país a milhares de quilômetros de distância. A dispersão geográfica, que Niño Guerrero acreditava ser sua proteção, revelou-se irrelevante diante de tecnologia de inteligência e vontade política.
A pergunta que fica não é se os EUA farão algo contra as facções brasileiras. A pergunta é o que o Brasil fará antes que os americanos decidam fazer. Porque se há uma lição que a morte de Niño Guerrero ensina é que, na nova geopolítica do combate ao crime organizado, quem não resolve seus próprios problemas corre o risco de ver alguém resolver por ele. E esse alguém não vai pedir licença.