Endrick tinha dois meses de vida quando Cafu ergueu a taça da Copa do Mundo em Yokohama, no Japão, em 30 de junho de 2002. Rayan nem era nascido. Danilo Santos, volante do Botafogo, tinha três anos. Para esses três convocados de Carlo Ancelotti, o pentacampeonato do Brasil não é memória: é história que só conhecem por vídeos no YouTube e relatos de família. Eles representam uma geração inteira de brasileiros que nunca viu a seleção no topo do mundo.
O dado é simbólico, mas diz muito sobre o momento do futebol brasileiro. Quando o Brasil conquistou o penta em 2002, derrotando a Alemanha por 2 a 0 na final com dois gols de Ronaldo, o país tinha uma relação quase religiosa com a seleção. Parar para assistir aos jogos era ritual nacional, as ruas ficavam vazias e as casas cheias. Vinte e quatro anos depois, pesquisas mostram que o sentimento dominante da torcida brasileira em relação à seleção é de desconfiança e indiferença.
A distância entre o último título e o presente se reflete na forma como o país consome a Copa. Em 2002, a internet discada mal carregava fotos. Em 2026, as redes sociais transformam cada lance em meme, cada erro em linchamento público e cada vitória em euforia efêmera. O jogador brasileiro de Copa do Mundo hoje precisa lidar com uma pressão midiática que seus antecessores jamais imaginaram, num ambiente onde a paciência da torcida se mede em segundos.
Para Endrick, de 19 anos, Rayan, de 21, e Danilo Santos, de 24, esta Copa é a chance de criar suas próprias memórias e, quem sabe, dar à sua geração algo que ela nunca teve: a experiência de ver o Brasil campeão do mundo. Endrick, revelado pelo Palmeiras e hoje no Lyon, é apontado como um dos maiores talentos do futebol mundial. Rayan, do Bournemouth, impressionou na Premier League. Danilo Santos é o motor do meio-campo do Botafogo.
Ancelotti tem dito que esta seleção joga pelo coletivo, não por individualidades. Mas a verdade é que Copas são definidas por momentos individuais, por lampejos de gênio que entram para a história. Se algum desses jovens protagonizar um desses momentos, não estará apenas ajudando o Brasil a vencer um jogo. Estará encerrando um jejum que já dura mais do que muitos de seus torcedores estão vivos.