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Master: Sicário mandou para Vorcaro apurações sigilosas do MPF quatro meses antes de prisão em 2025
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Vorcaro falou com Sicário sobre ‘tomar medida urgente’ contra gestor que denunciou Master

A Polícia Federal (PF) encontrou evidências de que Daniel Vorcaro e seu comparsa Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, o “Sicário”, apontado pelos investigadores como operador de uma milícia privada que atuava a mando do ex-banqueiro, monitoraram ilegalmente um empresário que denunciou irregularidades em negócios do Banco Master e travou com seu dono uma batalha judicial. A dupla também teve acesso a procedimentos policiais sigilosos.

Em um dos diálogos obtidos pela PF, de 2023, Vorcaro afirmou a Sicário que os dois teriam que “tomar uma medida URGENTE” contra Vladimir Timerman, fundador e gestor da Esh Capital. Acionista da Gafisa, Timerman acusou fundos ligados ao Master e ao empresário Nelson Tanure de manipular operações fraudulentas na companhia.

A denúncia do gestor deu origem a um inquérito da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) contra Tanure e Vorcaro e a uma queixa-crime por calúnia e difamação na Justiça na qual o Master e seu dono foram representados pela advogada Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, como revelamos no blog. Viviane fechou um contrato de R$ 129 milhões com a instituição e recebeu R$ 80 milhões antes de sua liquidação, segundo a Receita Federal.

Timerman acusou os dois de tentar ampliar indiretamente o controle de Tanure —, tido pela PF e pelo Ministério Público Federal (MPF) como possível sócio oculto do Master —- sobre a Gafisa manipulando o mercado e ocultando conflitos de interesse. Tanure nega.

A ofensiva sobre Timerman foi detalhada em um relatório da Polícia Federal anexado aos autos da investigação que tramita no STF sob a relatoria do ministro André Mendonça. O documento foi tornado público em junho por decisão do magistrado, que depois restaurou o sigilo do processo.

Em uma das conversas, Vorcaro encaminha a Sicário prints de uma publicação do gestor da Esh nas redes sociais em dezembro de 2023 alertando sobre um “bilionário conhecido por ter o toque de Midas” mas que, na verdade, seria “apenas mais um malandro” que oferecia taxas de retorno milagrosas em carteiras de crédito tendo como lastro fundos de investimento podres.

Entre as respostas, um usuário reagiu a Timerman: “Banco Master? Esse seria o meu chute. Eles estavam mega alocados em precatórios há uns tempos atrás emitindo uns CDBs malucos. Sei lá…”.

No mesmo dia, o investidor voltou à carga na rede social X: “No meio das minhas investigações tenho convicção de que encontrei o Jeffrey Epstein brasileiro… Tem que expor esse tipo de gente que acha que o fato de ter uns trocos na conta do banco pode fazer o que bem entender. E tem que colocar os aceclas [sic] no mesmo lugar. É cúmplice [sic]”, seguiu, alegando ainda ter a confirmação de nomes de mulheres abusadas.

Enfurecido, Vorcaro diz a Sicário que Timerman vinha tentando “extorqui-lo há tempos” e propõe como saída pressioná-lo chamando o gestor a prestar esclarecimentos sobre as acusações, embora não tenha mencionado o banqueiro e nem o Master nos posts.

Ainda segundo a PF, o então CEO do Master enviou ao comparsa no mesmo dia um despacho da Polícia Civil de São Paulo de agosto de 2023 (quatro meses antes) sobre o indiciamento de Timerman por extorsão em um processo movido por Tanure e seus advogados, bem como os autos de qualificação do gestor no inquérito e um processo da mesma natureza que tramitava no MPF.

Para os investigadores, a orientação para chamar o gestor para prestar esclarecimentos sugere que Vorcaro monitorava ações judiciais contra o desafeto:

“Tal circunstância evidencia que Daniel Bueno Vorcaro já tinha ciência do indiciamento e do regular andamento do procedimento policial, permitindo inferir que sua solicitação visava à oitiva de Vladimir no âmbito de investigação formalmente instaurada e em curso”.

Horas mais tarde, Sicário diz ao dono do Master que “A Turma” e “os meninos”, referência à milícia privada controlada por ele para atender aos interesses do banqueiro, estavam monitorando Timerman a todo o momento.

“Esse cara estamos monitorando 24h dele aqui [sic]”, escreveu Luiz Phillipi Mourão. “Estou confirmando os dados pra caso precise [sic] dominarmos e-mails e contas, e caso precise banir os números de WhatsApp e contas de Instagram, já está alinhado também”.

Dois dias depois, em 21 de dezembro, Sicário retorna com quatro consultas processuais sobre Vladimir Timeman com diversas informações sob sigilo de Justiça.

Em março de 2026, Sicário cometeu suicídio após ser preso pela PF em Minas Gerais. Integrante do grupo “A Turma”, ele recebia R$ 1 milhão por mês de Vorcaro em troca dos serviços prestados ao banqueiro, que incluíam obtenção de processos sigilosos, intimidações a desafetos, monitoramento ilegal de pessoas – dentre jornalistas, funcionários do executivo e até o CEO do Itaú –, além do gerenciamento de um grupo de hackers.

Conhecido em Minas pela extensa ficha criminal, Sicário já foi indiciado por furto qualificado, estelionato, associação criminosa e falsificação de documentos e evasão de divisas, entre outros crimes.

Guerra prolongada
Os autos da Polícia Federal indicam que a guerra travada entre Daniel Vorcaro e Timerman se prolongou pelo menos até meados de 2024.

Em março daquele ano, Sicário acessou novas informações sigilosas sobre inquéritos da PF em curso através do cadastro de uma servidora do MPF em Brasília – os investigadores ainda não concluíram se por meio de acesso hacker ou cumplicidade da funcionária.

“Evidencia-se que, embora o processo estivesse inicialmente protegido por sigilo máximo, o acesso integral foi obtido em curto intervalo de tempo, sem que haja registro de justificativa formal para a mudança no nível de acesso. Esse cenário indica possível quebra dos protocolos de segurança da informação ou uso inadequado de prerrogativas funcionais”, destacaram os investidores.

Três meses depois, os dois foram intimados junto de Tanure e Maurício Quadrado, ex-sócio do Master, para depor à PF no âmbito do processo movido pelo gestor da Esh no caso Gafisa.

“De novo esse cara. Não tem condição isso. Esse débil mental toda hora trazendo problema”, escreveu o CEO do Master.

Sicário então iniciou uma nova busca processual para fustigar Timerman, mas alertou que os inquéritos da Polícia Federal estavam sob “sigilo máximo”, o que novamente demandaria tempo.

“Mandei dar carga total no cara. Enquanto ele não tiver preso não vai parar”, reclamou Vorcaro.

O comparsa, então, mas disse que enviou “A Turma” para “irem lá de perto olhar isso” e, sob orientação do banqueiro, atua para puxar todos os processos que citem Tanure, Quadrado, Vorcaro, o pai do dono do Master, Henrique, e seu cunhado, Fabiano Zettel.

Dias depois, Luiz Phillipi Mourão volta com diversos documentos sigilosos e pergunta ao executivo:

“Se tiver mais alguma informação pra complementar de algum nome, ou empresa ou pessoa que eu não saiba”. Em seguida acrescenta: “Me avise e me mande para puxar. Me dá um update, se quer alguma coisa. Para puxar o que precisar estamos com acesso total e ilimitado lá, só não sei até quando”.

No documento, a Polícia Federal aponta para a “atuação direta” de Vorcaro e Sicário “na condução de providências relacionadas a procedimentos policiais, bem como possível tentativa de direcionamento e controle da narrativa dos fatos”.

Procurada, a defesa de Vorcaro e Vladimir Timerman não retornaram até o fechamento da reportagem. O espaço segue aberto.

Batalha contra Timerman
Por fim, Daniel Vorcaro perdeu a batalha judicial contra Vladimir Timerman na Justiça no caso Gafisa.

A queixa-crime apresentada pelo banqueiro contra o gestor da Esh Capital foi rejeitada primeiramente pela 14ª Vara Criminal de São Paulo por ausência de justa causa. Daniel Vorcaro e seu banco recorreram e o caso foi remetido à 2ª Câmara de Direito Criminal do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP).

Após um parecer da Procuradoria-Geral de Justiça pelo indeferimento do recurso, que citou a ausência de “provas suficientes de dolo específico de ofender”, o colegiado decidiu em 31 de outubro de 2025 pela sua rejeição.

Poucas semanas depois, a PF deflagrou a primeira etapa da Compliance Zero, quando Vorcaro e quatro integrantes da cúpula do Master foram presos preventivamente e o banco foi liquidado pelo Banco Central. Os embargos declaratórios foram julgados em dezembro passado, quando o processo foi encerrado em definitivo.

Até hoje, porém, Vorcaro ainda não pagou a dívida de R$ 5,6 mil referentes aos honorários de sucumbência e, por isso, é alvo de uma execução na Justiça de São Paulo, como informamos no blog.

Malu Gaspar O Globo

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