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Opinião do Estadão: A equipe econômica perdeu o pudor

A julgar pelos resultados mais recentes das pesquisas, o arsenal de medidas eleitoreiras lançadas pelo governo Lula para reverter o mau humor do brasileiro tem cumprido seu objetivo. Nenhuma novidade: presidentes em busca da reeleição usam descaradamente a máquina em seu favor. O que chama a atenção é a atitude da equipe econômica – que abandonou a discrição que deveria ter em razão do caráter técnico de sua atividade e passou a atuar abertamente como um braço da campanha do petista.

Já não basta avalizar ações criadas às pressas e sem fundamento técnico em declarações públicas e entrevistas: agora há “estudos” produzidos pelo Ministério do Planejamento e Orçamento (MPO) para referendá-las. Publicados no início de julho, pouco antes do início do chamado período de defeso eleitoral, os documentos expressam a essência do negacionismo econômico lulopetista.

Um dos textos, cujo título é “Impacto de medidas de crédito no emprego, renda e arrecadação: uma abordagem via matriz insumo-produto”, enaltece o efeito multiplicador em termos de desenvolvimento econômico e social de ações como a expansão do Minha Casa Minha Vida, o Reforma Casa Brasil, os financiamentos subsidiados para aquisição de caminhões, ônibus e veículos e as linhas de créditos para a indústria e bens de capital verdes, ao mesmo tempo em que menospreza os riscos que essas medidas impõem às contas públicas.

O outro documento, intitulado “Os condicionantes do avanço nas expectativas de inflação desde março”, atribui a piora nas projeções para o IPCA deste ano à deflagração da guerra no Oriente Médio e a problemas climáticos na safra agrícola. O pacote eleitoreiro não seria um motivo adicional para o aumento das expectativas, pois as medidas “não têm como foco estimular a demanda”.

A lógica da equipe econômica é tortuosa. Ainda que, por hipótese, se admita que a intenção do governo não fosse estimular a demanda por meio dessas medidas – e sim conter o repasse do choque energético à inflação, deslocar renda para o pagamento de dívidas, desafogar o crédito setorial de médio e longo prazo, atacar o déficit habitacional e promover o aumento de investimentos, da produtividade e da sustentabilidade, como dizem os estudos –, é óbvio que essas ações acabam por incentivar o consumo. E isso é, sim, um problema em um país com inflação pressionada, economia aquecida, desemprego baixo e juros nas alturas.

Para o governo, as medidas são todas “meritórias”: em conjunto, elas custarão R$ 83,5 bilhões, mas poderão gerar 1,9 milhão de empregos, adicionar R$ 110,9 bilhões ao Produto Interno Bruto (PIB) e arrecadar R$ 45,4 bilhões. O papel aceita tudo, e os números, sob tortura, dizem qualquer coisa. A numeralha até serve como discurso eleitoral, mas certamente não basta como defesa de políticas públicas de um governo.

A alternativa – utilizar os recursos dos fundos que vão bancar a maioria dessas políticas para abater a dívida pública – produziria, segundo o governo, “impacto bastante limitado sobre a dívida bruta no curto prazo”. Ora, é justamente esse tipo de ação que contribuiria para reduzir a taxa básica de juros para toda a sociedade, e não apenas para um público escolhido a dedo para garantir votos a Lula em outubro.

Um artigo do pesquisador Marcos Mendes e do coordenador acadêmico do Observatório da Qualidade do Gasto Público do Insper, Sergio Firpo, desmonta a tese da equipe econômica. Publicado no site do Insper, o documento questiona a alegada transparência do governo ao direcionar verba para essas políticas, critica a metodologia usada para calcular os supostos ganhos para a economia e evidencia uma estratégia de contabilizar as operações de forma a reduzir seus riscos e seu impacto no endividamento.

Fica claro o motivo pelo qual os estudos do governo deixaram tantas questões em aberto. Eles se destinam unicamente a defender o governo contra críticas ao uso de medidas parafiscais, ou seja, manobras para financiar programas com receitas financeiras e evitar impacto primário imediato, chancelando o discurso de cumprimento da meta fiscal, ainda que o aumento da dívida na proporção do PIB seja incontestável e escancare a necessidade de um inevitável ajuste em 2027. Mas isso não estará escrito em nenhum documento deste governo.

Opinião do Estadão
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