A relação entre o ministro do STF Alexandre de Moraes e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, guarda até hoje um mistério central: o que exatamente o magistrado disse ao empresário nos dias que antecederam sua prisão, em novembro de 2025. Informações do Estadão indicam que Vorcaro não apenas trocou mensagens com Moraes, mas também se encontrou pessoalmente com o ministro nos dias 14 e 16 de novembro, respectivamente três dias e um dia antes de sua prisão.
O segundo encontro, marcado para as 14h de um domingo, ocorreu poucas horas antes de o banqueiro ser detido pela Polícia Federal no aeroporto de Guarulhos, quando se preparava para embarcar em um jato particular com destino aos Emirados Árabes Unidos. Ao todo, a PF identificou indícios de ao menos nove reuniões presenciais entre os dois em Brasília, São Paulo e Campos do Jordão, entre 2024 e 2025.
Nas mensagens que antecederam esses encontros, Vorcaro pediu conselhos e demonstrou apreensão sobre sua situação. Em 15 de novembro, perguntou diretamente ao ministro: "Acha que segunda já tenho que estar fora?", numa aparente consulta sobre deixar o país. No dia seguinte, chegou a sugerir que Moraes intercedesse junto ao diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, para tentar ganhar tempo antes de uma possível operação contra ele.
O problema é que a PF conseguiu recuperar apenas o lado de Vorcaro nessas conversas. Segundo o material apurado, os dois teriam usado o recurso de visualização única do WhatsApp para as respostas atribuídas a Moraes, o que impossibilitou a extração técnica do conteúdo enviado pelo ministro. Isso significa que só é possível reconstituir as perguntas e reações do banqueiro, nunca as respostas.
Essa lacuna alimenta uma hipótese até agora não descartada por investigadores e analistas: a de que Moraes, no encontro de 16 de novembro, poderia ter aconselhado Vorcaro a não fazer um acordo de delação premiada com a Justiça, o que ajudaria a explicar por que o banqueiro seguiu tentando negociar prazos e buscando apoio de autoridades em vez de colaborar com as investigações desde o início. Não há, porém, qualquer prova concreta que confirme esse cenário.
Até o momento, Moraes optou pelo silêncio. Procurado pela imprensa desde a revelação do caso, em 1º de setembro, o ministro não se manifestou sobre o conteúdo das mensagens nem sobre os encontros presenciais com Vorcaro. Essa ausência de explicações mantém em aberto as duas hipóteses centrais do caso: a de que o ministro teria oferecido orientação irregular ao banqueiro para escapar da Justiça, e a de que os pedidos de Vorcaro simplesmente não teriam sido atendidos.
Enquanto Moraes não romper o silêncio, nem publicamente, nem no plenário do STF, a verdade sobre o que de fato foi dito nesses encontros permanecerá desconhecida. A sessão do Supremo marcada para terça-feira (15) deve ser a primeira oportunidade formal para que o próprio ministro apresente sua versão dos fatos aos colegas de Corte.