O ex-senador Francisco Feitosa de Albuquerque Lima, conhecido como Chiquinho Feitosa (Republicanos) teve, em 2024, uma série de conversas com o banqueiro Daniel Vorcaro. Na época, Chiquinho era cunhado do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes e tratou com Vorcaro de dois processos que estavam na Corte, sendo um deles de relatoria do magistrado. Os dois processos citados na conversa acabaram tendo, no entanto, votos de Gilmar contrários aos interesses do Master.
Procurado, Chiquinho Feitosa primeiro negou que tenha trabalhado para banco de Vorcaro. Confrontado com a informação de que a empresa Super Empreendimentos o contratou, admitiu que houve a prestação de serviço, mas “durante um curto período”. Ele afirmou que, na época, a empresa, apontada pela Polícia Federal (PF) como instrumento de lavagem de dinheiro e ocultação de patrimônio, era vista como “idônea” e “atuava em diversos segmentos”. Mensagens indicam que o contrato foi de R$ 500 mil mensais.
O ministro Gilmar Mendes também foi procurado pela reportagem. Em nota encmainhada ao jornal, ele disse que Chiquinho Feitosa é seu ex-cunhado do Ministro. “O Ministro não teve conhecimento de qualquer tratativa entre ele e Daniel Vorcaro, não foi por ele procurado sobre os assuntos mencionados e não responde por relações privadas ou profissionais de ex-parente”, afirmou o magistrado.
Ele admitiu ter recebido os advogados do Banco Master em uma audiência no STF. Frisou que ela foi “realizada na sede do Tribunal, em ambiente institucional, e não em espaço privado”. E concluiu: “Em nenhum desses processos o Ministro votou em sentido favorável aos interesses apontados pela reportagem — inclusive após a audiência mencionada.”
Conversas extraídas pela Polícia Federal do celular de Vorcaro, entre o dia 15 de abril de 2024 e 13 de novembro do mesmo ano, indicam que Feitosa recebeu pagamentos do banqueiro por prestar serviços de “assessoria”.
O ex-senador é irmão da advogada Guiomar Feitosa, que foi mulher do ministro até novembro de 2025, quando se divorciaram. Os diálogos são de um período em que eles ainda tinham o elo familiar. Chiquinho Feitosa teve longa carreira como empresário, deputado e senador pelo Ceará.
Precatórios de usinas e vagas de medicina na pauta de Vorcaro com o e ex-cunhado de Gilmar
As conversas mostram que Chiquinho tratou de dois casos específicos cujos julgamentos tiveram participação de Gilmar Mendes. Um deles se refere a precatórios da Usina Agroindustrial Tabu, da Paraíba, que foram adquiridos por fundos do Banco Master. Neste caso, o ministro, assim como outros da Corte, votou contra os interesses do Master e da empresa.
Outro caso diz respeito a um julgamento de relatoria de Gilmar sobre regras para abertura de vagas para cursos de medicina no Brasil. À época, o Master chegou a ser sócio e financiador de uma universidade que tinha cursos de medicina por meio de um desses fundos.
O julgamento era de uma questão constitucional relacionada a cursos de medicina. Gilmar foi relator e votou para a manutenção da lei em vigor — e foi acompanhado de seus pares no STF. Trata-se de um caso que não beneficia necessariamente uma parte específica. Mas, indiretamente, foi contrário ao interesse de Vorcaro.
Lista de pautas com Vorcaro e o contrato
Os pagamentos a Chiquinho Feitosa são tratados pelo próprio ex-senador com Vorcaro. Em uma mensagem datada de 11 de setembro de 2024, o ex-senador prestou contas sobre como estavam as tratativas sobre precatórios e na área da educação, pleitos que Vorcaro tinha com ele. O ex-cunhado do ministro, então, aproveitou para discutir seu contrato.
“CONTRATO: Uma pessoa minha, já se entendeu com o Léo, e mandou o contrato para assinarmos e emitir a nota do dia 15, conforme combinamos! Preciso de orientação no que ficou pendente. Se você quiser, posso somar o remanescente ao valor da assessoria desse mês e tirar uma só nota. No mais, para lhe dizer que estou 100% dedicado aos nossos assuntos, sempre com muita atenção, cuidado e responsabilidade conforme você me recomendou”, disse Chiquinho.
As conversas sobre o contrato com Chiquinho também aparecem em diálogos interceptados com o empresário Leonardo Palhares, apontado como um dos operadores do Master pela Polícia Federal. No dia seguinte à abordagem de Chiquinho sobre o contrato, Palhares conversou com Vorcaro.
“E sobre o outro contrato que estou tratando (Chiquinho), me confirma se é isso que você combinou, por favor: A CONTRATANTE pagará ao CONTRATADO em remuneração de seus serviços o valor mensal de R$ 500.000,00 (quinhentos mil reais) LÍQUIDO. Na primeira parcela será adicionado um honorário extra no valor de R$ 800.000,00 (oitocentos mil reais) LÍQUIDO que deverá ser pago no dia 15 de setembro de 2024″, afirmou. Vorcaro deu ok para Palhares.
Palhares, então perguntou: “Blz. Super do nosso lado?”. Vorcaro respondeu: “Ok”. Super Empreendimentos é uma empresa do banqueiro que, segundo a PF, era usada para lavagem de dinheiro. Em outra conversa, de 2 outubro de 2024, Fabiano Zettel enviou uma lista de pagamentos para prestadores, e disse: “Me perdoa o tamanho da lista, mas eu to segurando no peito a (sic) muitas semanas”. Um dos itens é: “500k - F&A Super valor mensal (Chiquinho)”. O cunhado de Gilmar é dono da F&A Consultoria em Gestão Empresarial e Logística, sediada em Fortaleza (CE), e que tem como objeto social “Atividades de consultoria em gestão empresarial”.
Em mensagem enviada a Vorcaro, apontado pela PF também como operador financeiro do banqueiro, Fabiano Zettel associou Chiquinho ao pagamento de R$ 2 milhões em 27 de janeiro de 2025. “Pacelli, Bellini e Chiquinho - uns 2M”, disse Zettel, em meio a uma lista com diversos outros pagamentos a empresas, advogados e consultores. Citados na mesma mensagem, Eugênio Pacelli é advogado de Henrique Vorcaro, pai de Daniel. Ele não é investigado. E Belline Santana é o ex-chefe de supervisão do Banco Central, suspeito de receber propina do Master. Procurado, Pacelli não se manifestou. A defesa de Santana afirma que foi contratado por Palhares para um projeto social de inclusão de jovens no mercado financeiro. Ele diz que à época da contratação, em 2023, ele não sabia do envolvimento de Palhares com o Master.
Encontro com Gilmar e advogados do Banco Master intermediado por Chiquinho Feitosa
“Grande comandante”, disse Vorcaro a Chiquinho Feitosa no dia 11 de abril de 2024, data em que se iniciam os diálogos obtidos pelo Estadão. Em seguida, o ex-cunhado de Gilmar mandou três figuras com uma mão fazendo sinal positivo, o conhecido “joinha”. E encaminhou o contato de Carla Maria Moreira Sampaio Zottmann, salvo como “Carla Gilmar”. Ela é servidora do Superior Tribunal de Justiça (STJ) que atuou cedida ao gabinete do ministro no Supremo.
Em seguida, Chiquinho encaminhou a Vorcaro a seguinte mensagem, cujo autor é desconhecido: “Não sei quanto tempo o Ministro terá, mas se for possível o roteiro abaixo. seria ótimo: Eu iria sozinho de 18 até 18:30 e de 18:30 até 19, entrariam duas pessoas para se juntarem à reunião: Andre Krutchevsky - diretor juridico banco master. Bruno Bianco- assessor jurídico WTL (sigla do escritório de Bianco)”. O Estadão apurou que o encontro do advogado com o ministro Gilmar ocorreu e que Bianco foi apresentado a Chiquinho por Vorcaro.
Bruno Bianco, citado na conversa, é ex-advogado-geral da União e foi contratado pelo Banco Master para atuar na defesa de fundos que compraram precatórios de usinas de açúcar. Procurado, Bianco disse que teve atuação regular como advogado (veja mais abaixo).
Chiquinho relatou a Vorcaro diversas vezes sobre o andamento das conversas com Bianco, que atuava pelos precatórios do Master. No dia 18 de abril de 2024, ele disse: “Oi, Daniel! Bom dia! Por aqui, tudo bem! As coisas acontecendo dentro do esperado. Darei informações a você e o Bianco ainda hoje!”.
Mais tarde, retomou o assunto: “Em quanto (sic) ao outro assunto, a conversa do Bianco ficou perfeita c o Gilmar”. Vorcaro respondeu: “Que otimo”. Em seguida, Chiquinho disse: “Já já vou ligar p o Bianco”. Em outras ocasiões, ele mencionou encontros em Lisboa e em Brasília com o ex-advogado-geral da União. Apesar disso, o ex-senador disse ao Estadão que não sabia que Bianco atuava pelos interesses do banqueiro.
No fim dos diálogos obtidos pela reportagem, em novembro daquele ano, Chiquinho encaminhou a Vorcaro uma decisão do então presidente do STF, Luís Roberto Barroso, sobre os precatórios da Usina Tabu e pediu para que Vorcaro ligasse para ele. A decisão enviada por Chiquinho determinava a suspensão do pagamento do precatório.
Este é o mesmo processo que, segundo o ministro do Supremo Tribunal Federal André Mendonça, foi tema de seu encontro com o banqueiro Daniel Vorcaro em março de 2025, após o ICL Notícias revelar áudios de um advogado tratando sobre o encontro.
Gilmar foi relator de caso tratado pelo então cunhado e Vorcaro
O segundo processo tratado por Chiquinho Feitosa com Vorcaro é o da Ação Declaratória de Constitucionalidade (ADC) 81. Nele o Supremo julgou válida a exigência de chamamento público do governo federal para criar cursos de Medicina – uma imposição da lei do Mais Médicos. Gilmar Mendes era o relator.
O caso era de interesse do Master. O fundo Calêndula, ligado ao banco, foi financiador e uma espécie de sócio da Associação Educacional Luterana do Brasil (Aelbra), mantenedora da Universidade Luterana do Brasil.
No dia 17 de abril de 2024, o então cunhado do ministro mandou mensagem a Vorcaro, dizendo que já havia conversado com Gilmar. “Vamos jantar”, disse.
Dois dias depois, os dois trataram da ida do banqueiro para um evento em Londres, onde Chiquinho afirmou que Vorcaro se encontraria com Gilmar.
“E como diz o Lula: a luta continua1”, afirmou o ex-cunhado. No dia 2 de maio, ele aproveitou para pedir ao banqueiro dois ingressos para a Fórmula 1. Três dias depois seria corrido o GP de Miami. Vorcaro era patrocinador da equipe Aston Martin.
No dia 21 de junho, eles trataram da participação do Master em um coquetel oferecido em um seminário do IDP. O convite estava em nome de Universidade Brasil, Escola da Magistratura e Banco Master. “Para esse momento, recomendo suprimir o nome do banco. Ganhamos uma partida, mas ainda não ganhamos o campeonato. De modo que não é bom se expor!”, disse o ex-senador.
No dia 28 de agosto, o ex-senador disse que se encontrou com Guiomar, sua irmãe e mulher de Gilmar, afirmando: “Chefe, nossa reunião com a Guiomar, como combinado, dia 28”. Vorcaro disse que se confundiu e pensou que o encontro seria no dia 29. Durante a conversa, eles remarcaram a reunião para a semana seguinte.
Ao Estadão, Guiomar afirmou que Vorcaro lhe procurou por intermédio de seu irmão e uma reunião foi marcada. No entanto, decidiu não atuar para Vorcaro porque entendeu que ele não mencionou nenhum processo específico que demandasse seu trabalho. “Ele [Vorcaro] não tinha assunto nenhum, não tinha uma história. Aí Eu digo: o senhor tem o número dos processos e tal, né? E ele me respondeu: Não, não tenho, eu passo depois e tudo. Ele ficou de mandar o número dos processos, não tinha processo, pronto”, disse.
No dia 9 de setembro, Vorcaro e Chiquinho combinaram um encontro para o dia 15 de setembro em uma casa, no Lago Sul, em Brasília. No dia 11 de setembro, Chiquinho fez o seguinte relato a Vorcaro: “MEC andando na velocidade esperada”. E depois afirmou que “uma pessoa minha já se entendeu com o Leo e mandou o contrato para assinarmos no dia 15”.
E o ex-cunhado prosseguiu: “Preciso de orientação no que ficou pendente. Se você quiser posso somar o remanescente ao valor da assessoria desse mês e tirar uma nota só”. O que confirmaria que Chiquinho era remunerado por Vorcaro para a defesa de seus interesses. “No mais, posso dizer que estou 100% dedicado aos nosso assuntos, sempre com muita atenção, cuidado e responsabilidade conforme você me orientou.”
Vorcaro, então, respondeu: “Vamos assinar já e iniciar”. No dia 24 de setembro, Chiquinho afirmou que estava em São Paulo com Thomas Heimann, que o teria convidado para se encontrar com Maurício Quadrado, ex-sócio do Banco Master. “Os assuntos trazidos por Thomas estão sendo solucionado”, disse o então cunhado de Gilmar ao banqueiro.
Leia a integra do posicionamento do ministro Gilmar Mendes
Chiquinho Feitosa é ex-cunhado do Ministro. O Ministro não teve conhecimento de qualquer tratativa entre ele e Daniel Vorcaro, não foi por ele procurado sobre os assuntos mencionados e não responde por relações privadas ou profissionais de ex-parente.
A audiência ocorreu em 11 de abril de 2024, às 18h, no gabinete do Ministro, no Supremo Tribunal Federal, e contou com a presença dos advogados do Banco Master. Foi realizada na sede do Tribunal, em ambiente institucional, e não em espaço privado. O recebimento de advogados em audiência é prerrogativa assegurada pelo art. 7º, VIII, da Lei 8.906/1994. Na ocasião, tratou-se de causa do setor sucroalcooleiro — ARE 1327995, de relatoria do Ministro Edson Fachin, em que figura como recorrida a Destilaria Alcídia S/A.
Nesse processo, julgado pela Segunda Turma em 3 de junho de 2025, o Ministro Gilmar Mendes votou contra os interesses do Banco Master. O voto foi contra o pagamento do precatório, no sentido defendido pela União. Ficou vencido, acompanhado pelo Ministro André Mendonça. Prevaleceu a posição dos Ministros Edson Fachin, Nunes Marques e Dias Toffoli, favorável à empresa.
O voto foi o mesmo em todos os demais casos do setor sucroalcooleiro julgados na Segunda Turma. No ARE 1312127 (Raízen), relatado pelo Ministro, ele votou contra o pagamento do precatório, e a União saiu vitoriosa em 16 de setembro de 2024, vencidos os Ministros Edson Fachin e Nunes Marques. No ARE 1392660 (Jalles Machado), votou duas vezes contra o pagamento à usina — em 6 de agosto de 2024 e em 19 de agosto de 2025 —, ficando vencido nas duas ocasiões, acompanhado pelo Ministro André Mendonça. No ARE 1500251 (Raízen), pediu destaque em 15 de agosto de 2025 e interrompeu julgamento que se encaminhava em favor da usina. Na STP 976-ED, votou em todas as sessões contra a liberação do precatório de mais de R$ 5 bilhões.
Em nenhum desses processos o Ministro votou em sentido favorável aos interesses apontados pela reportagem — inclusive após a audiência mencionada.
Leia a íntegra do posicionamento de Chiquinho Feitosa
Ao Estadão, Chiquinho Feitosa disse que conheceu Daniel Vorcaro no período dos diálogos, mas não sabia que Bruno Bianco atuava para o banqueiro. Ele afirmou não conhecer o diretor jurídico do Master, André Krutchevsky e que não intermediou encontros entre funcionários do banco e o ministro Gilmar Mendes.
“Em relação ao Bruno Bianco, desconheço que ele fosse empregado do Master. Quando o Daniel me passou o número dele, ele já era meu amigo. Ele foi AGU, é empresário e advogado de várias empresas e bancos. Uma pessoa que eu costumo conversar para trocar ideias.”
Sobre a Aelbra, ele disse não se lembrar do que foi discutido. “Não sei o que conversamos a época em relação a esse assunto. No mais, o que falo na mensagem relatada é sobre a minha agenda de compromissos naquele específico dia. Mostrando que estava ocupado”, afirmou Chiquinho. Ele ainda acrescentou que esteve com Thomas Heimann a pedido de Vorcaro “com o objetivo de ouvi-lo”.
O ex-senador disse que não tinha contrato com o Banco Master. “Tive um contrato de consultoria com a Super Empreendimentos durante um curto período. À época uma empresa idônea que atuava em diversos segmentos, e despertava interesse no mercado”.
“Sobre o referido coquetel, era um evento paralelo ao seminário do IDP, a exemplo de tantos outros. Do meu conhecimento o organizador e patrocinador era a UniBrasil e a Escola da Magistratura. O nome do Master estava figurando no convite. Eu sugeri de forma despretenciosa que retirasse o nome do banco, em virtude da própria natureza do evento.”
Leia a íntegra do posicionamento de Bruno Bianco
Bruno Bianco é advogado, titular de seu próprio escritório e reconhecido no mercado jurídico por sua atuação em Direito Público.
No caso em questão, Bianco representava clientes de seu escritório em uma discussão jurídica que também interessava a outras partes.
Nesse contexto, exerceu funções típicas e próprias da advocacia, entre elas, despacho com magistrados e apresentação de memoriais.
Como não poderia deixar de ser, manteve interlocução com outros advogados e interessados no tema, o que ocorre regularmente no exercício da advocacia.
Bianco não integrou os quadros do Banco Master nem exerceu cargo ou função na instituição. Sua atuação profissional sempre se deu de forma independente, por meio de seu próprio escritório.
As audiências e os demais compromissos profissionais de Bianco são solicitados e agendados por seu próprio escritório.
Quanto ao mérito da discussão mencionada, a tese jurídica, por unanimidade, não foi acolhida pelo Tribunal.
Fausto Macedo - Estadão