O mercado imobiliário de Natal chega ao último trimestre de 2026 em um momento de retomada, depois de anos de baixo volume de lançamentos, e o setor espera que o cenário econômico após as eleições preserve a previsibilidade necessária para novos investimentos. Para o empresário e especialista em mercado imobiliário Valdomiro Júnior, diretor da Emobi Imobiliária, os principais fatores a serem acompanhados serão juros, crédito, confiança e continuidade do Minha Casa, Minha Vida.
“Imóvel é uma decisão de longo prazo, tanto para quem compra quanto para quem constrói. Um empreendimento leva anos entre o lançamento e a entrega, então o mercado precisa de regras claras e de previsibilidade para continuar investindo”, afirma.
Os números mais recentes indicam que a retomada já está acontecendo. Segundo levantamento da Brain Inteligência de Mercado encomendado pelo Sinduscon-RN e pelo Sebrae-RN, Natal comercializou 1.720 unidades residenciais verticais nos 12 meses encerrados em junho deste ano, alta de 78% em relação ao mesmo período de 2025. No mesmo intervalo, foram lançadas 1.596 unidades, crescimento de 34%.
“Os números mostram que Natal vem consolidando uma trajetória de crescimento, com aumento expressivo nas vendas e valorização dos imóveis. O avanço de 78% nas vendas demonstra que existe uma demanda consistente e capacidade de absorção dos novos produtos pelo mercado”, avalia Francisco Ramos, vice-presidente de Mercado Imobiliário do Sinduscon-RN.
O movimento também aparece no volume financeiro. O Valor Geral de Vendas (VGV) dos imóveis verticais chegou a R$ 931 milhões no período, ante R$ 671 milhões um ano antes, alta de 22%. O preço médio do metro quadrado passou de R$ 8.353 para R$ 9.780, valorização de 17% em 12 meses.
Apesar da valorização, Natal ainda apresenta preço médio inferior ao de outras capitais nordestinas pesquisadas pela Brain. No segundo trimestre, o metro quadrado médio ficou em R$ 9.780 na capital potiguar, contra R$ 13.915 em João Pessoa, R$ 11.977 em Fortaleza, R$ 11.492 em Salvador e R$ 11.240 em Recife.
Para Valdomiro, essa diferença mantém Natal no radar de investidores, inclusive de outras partes do país. Ele destaca especialmente regiões como Ponta Negra, onde observa uma retomada dos empreendimentos de médio e alto padrão. “O mercado passou anos praticamente sem lançamentos. Depois da revisão do Plano Diretor, Natal voltou a ter lançamentos e o mercado se sentiu encorajado a investir novamente”, diz.
Custo do crédito
Na avaliação do empresário, o principal freio à expansão continua sendo o custo do crédito. A redução dos juros, caso prossiga, poderia destravar parte da demanda que permanece aguardando condições mais favoráveis de financiamento.
O diagnóstico encontra respaldo nos números nacionais. No primeiro semestre deste ano, as vendas de imóveis residenciais novos no país cresceram 5,4%, para 226.536 unidades, segundo os Indicadores Imobiliários Nacionais da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), elaborados pela Brain. No Nordeste, as vendas cresceram 13,6% no segundo trimestre, na comparação com o mesmo período de 2025. Os lançamentos na região avançaram 24,6%.
O Minha Casa, Minha Vida também ganhou peso no mercado. No segundo trimestre, o programa respondeu por 60% dos lançamentos no Nordeste e por 58% dos lançamentos residenciais em todo o país, segundo a CBIC. Em 2026, o programa passou a atender famílias com renda mensal de até R$ 13 mil, incluindo a chamada faixa de classe média, com financiamento de imóveis de até R$ 600 mil nessa modalidade.
“Os juros e o crédito são determinantes. É isso que define se a família consegue ou não entrar no financiamento. Se essa trajetória de queda continuar, muita gente que hoje está esperando pode voltar a comprar”, afirma Valdomiro.
Fator eleição
Na avaliação do empresário, o período eleitoral tem impacto maior sobre o comportamento do investidor do que sobre quem procura um imóvel para morar. “Quem compra para morar segue comprando, porque a vida da família não espera eleição. O investidor às vezes dá uma segurada, espera o cenário ficar mais claro, mas isso é adiamento, não desistência”, afirma.
Para o mercado de Natal, o desafio, segundo ele, será transformar a retomada atual em um ciclo de crescimento de longo prazo. Além das condições de crédito, Valdomiro aponta a infraestrutura urbana como um dos fatores que podem determinar a continuidade da valorização imobiliária.
Ele cita projetos de urbanização, a revitalização da orla e a expectativa em torno do Parque Linear como iniciativas capazes de influenciar a ocupação e a valorização de determinadas áreas da capital. “Quem vem de fora primeiro se encanta pela cidade, depois escolhe o imóvel. A cidade precisa acompanhar o ritmo do mercado”, afirma.
Ainda segundo Valdomiro, a combinação entre demanda, novos lançamentos, crédito e investimentos urbanos será determinante para saber se o atual movimento representa apenas uma recuperação ou o início de um novo ciclo imobiliário em Natal. “A gente passou tempo demais sem lançamentos. Agora que a cidade retomou, o desafio é transformar esse momento em crescimento contínuo”, conclui.