A decisão do ministro Alexandre de Moraes de autorizar busca e apreensão contra a suposta fonte de um jornalista maranhense revela um problema que ultrapassa o Maranhão e não é novidade para quem faz jornalismo fora dos grandes centros do país. E, sim, tem também a sua versão no RN:
O jornalista Luís Pablo denunciou o uso de carros oficiais do Tribunal de Justiça do Maranhão pelo ministro Flávio Dino e familiares. Em vez de investigar a denúncia, o Estado investigou o denunciante. Ele teve o celular apreendido em março, o que permitiu identificar Raimundo Cutrim, ex-secretário de Segurança do Maranhão, como possível fonte da reportagem. Cutrim agora é alvo de operação policial, com aval da Polícia Federal e da PGR. O resultado é uma inversão de valores evidente: a denúncia original segue sem qualquer apuração, enquanto jornalista e fonte se tornaram investigados.
O mais contraditório é que o próprio Alexandre Moraes, como constitucionalista, já definiu o sigilo da fonte como direito fundamental, que não pode ser quebrado por ordem judicial ou policial de forma ordinária, justamente para proteger quem denuncia irregularidades. Hoje, como ministro, ele parece contradizer sua própria doutrina.
Esse padrão não é exclusivo do Maranhão. No Rio Grande do Norte, situações semelhantes já foram relatadas durante a pandemia, quando fontes que denunciaram falhas em unidades de saúde também foram alvo de tentativas de identificação por parte de autoridades locais. São exemplos de como pequenos e grandes poderes, cada um em sua escala, tentam calar quem denuncia.
O mais preocupante talvez seja o silêncio da grande imprensa diante desses episódios. Quando o poder que deveria proteger o cidadão se volta contra quem o fiscaliza, e a sociedade não reage, cria-se um precedente grave: denunciar passa a ter custo, e esse custo recai sobre o jornalista e sua fonte, não sobre o denunciado. Isso não é jurisprudência, é intimidação institucionalizada, e merece mais atenção do debate público.